Perfeição: nunca vi, mas estou no encalço!

Oct 04

foto: Corbis

“Gente, as coisas que vocês fazem são perfeitas!”

Ouvimos muito essa frase, mas não, nossas coisas não são perfeitas. Há falhas que algumas clientes percebem, a maioria só nós percebemos. Algumas clientes, é verdade, são agraciadas com peças que saem do estúdio muito bem executadas, redondinhas, mas perfeitas… ah, não! Quando alguém diz que “tá perfeito!” prefiro recorrer à Nina Horta e resmungar com meus botões: “Xiii, nem percebeu que o tecido enrugou aqui neste ponto ou que o zíper está torto!”

“Perfeição não existe”, vocês vão me dizer. Essa frase, reproduzida como um mantra, é ardilosa, porque ficamos tentados a redimir nossas falhas com ela e a fazer menos do que a gente consegue. Afinal, pra quê lutar por algo que nem existe? Pra quê entrar numa briga perdida? É só pra brigar, oras! Pra aprender alguma coisa, pra fazer melhor aquilo que eu sempre fazia do mesmo jeito. Se eu não entrar nessa briga, vou fazer o quê? Ficar prostrada, vendo o mundo passar? Não, não, não! Já que estamos aqui, que façamos o melhor possível!

Se começarmos a achar que qualquer coisa está boa, se perdermos o senso crítico, porque os outros (ah, sempre os outros!) acham que somos chatos e cri-cris, ah, gente, aí o mundo tá lascado! É preciso treinar os sentidos para observar um trabalho bem feito, provar uma comida boa, tocar um bom material. Se você só estiver rodeado por coisas medíocres, até seu gosto se apequena, você se esquece do excelente, do esplêndido, de tudo aquilo que fez um “pliiim” na sua cabeça e te despertou para algo novo e inspirador. Gente cri-cri incomoda e pode ser bem mala, mas elas bem que abrem nossos olhos pra muita coisa e tem horas na vida que a presença delas é fundamental! Recomendo a todos que tenham ao menos um amigo cri-cri!

“Perfeição não existe” pode ser um convite à mesmice, à estagnação, a achar que tudo está ok do jeito que está, a se afundar no mediano. Mas, ora, se perfeição não existe, existe ao menos a ideia de perfeição, a perfeição como ideal, como horizonte. Se existe a ideia, é digno persegui-la, mesmo sabendo que nunca a alcançaremos e é aí que está a beleza nisso tudo: a consciência de nunca chegar lá, mas mesmo assim, nos darmos ao trabalho de abraçar a jornada de peito aberto, mesmo que o caminho não seja o mais fácil (geralmente nunca é, né). Afinal são essas pequenas e singelas opções que fazem a vida mais bacana e nos fazem um tiquinho melhores, nos inclinam um pouquinho mais a uma felicidade verdadeira. Nós, humanos, fazemos um monte de coisas disparatadas e uma delas é, conscientemente, correr atrás do inalcançável, diferente dos bichos que correm porque não sabem que nunca vão alcançar o objetivo. Então, se nos abstermos de correr atrás do perfeito, de um sonho impossível, que graça tem viver? A felicidade está aqui hoje, no caminho, e se é pra caminhar, que seja em busca de algo extraordinário!

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A vida não é um doce. Aceite.

Aug 31

foto: Corbis

Reflexão básica depois de ter feito o sofá: estamos viciados no rápido, fácil e instantâneo, não estamos, não?

Isso porque li um comentário no face dizendo que seria mais fácil comprar um sofá pronto. Seria mesmo. E no final das contas também seria mais barato, porque tempo custa muitos dinheiros (a não ser o tempo baratinho das pessoas desocupadas). Então pra quê perder tempo e dinheiro fazendo um sofá ou fazendo qualquer outra coisa que demanda tanta energia, esforço, dias e dias “perdidos”? Para algumas pessoas, somente otários fazem essas coisas. Esse modo de ver traduz bem como as coisas são hoje ou pra onde elas caminham. Ninguém quer dificuldades ou tentam escamoteá-las a todo custo. Até as crianças vão absorvendo essa mentalidade tão em voga. Vira e mexe vejo sistemas de ensino e escolas prometendo um ensino “lúdico” (aliás, ô palavra depauperada!), propagandeando que as crianças irão aprender brincando, como se não precisassem se esforçar pra isso e os pais acham ótimo. Eu acredito que é possível aprender alguma coisa brincando, mas não se enganem, a maioria das coisas, o conhecimento e o raciocínio mais finos e profundos e que nos levam mais longe exigem esforço e tempo. E muito. Temos que meter a cara nos livros e estudar anos e anos. É assim e sempre foi, não tem mágica (e eu não vou nem entrar no assunto cotas, porque aí a coisa fica mais sinistra ainda)! É demorado e trabalhoso e até onde sei, não existe ainda nenhuma tecnologia que enfia conteúdo na nossa cabeça, assim por osmose. Os adultos, especialmente os novos adultos, também estão infantilizados, pensando que é fácil fazer dinheiro. Penso que a ostentação das pessoas nas redes sociais contribui muito para essa sensação de que tudo é fácil. Parece que Nova York, Paris e Istambul ficam logo ali na esquina, que comer em restaurantes bacanas todo dia é trivial e que comprar todo tipo de coisa toda hora é banal. Costumo dizer que redes sociais têm diegese própria, ou seja, têm um campo ficcional, uma narrativa particular, onde há apenas a melhor versão de tudo, as melhores fotos, os melhores ângulos, os melhores momentos. Nada contra. É justo. Quem não quer mostrar só o melhor de si, feito os comerciais de TV? O problema é a vulnerabilidade do espectador. Muita gente acredita que esse pedacinho da verdade é toda a verdade. Não caiam nesse conto da carochinha, somos adultos, a vida é difícil, sempre foi. Por que justo a nossa geração seria agraciada por uma vida sem dificuldades? Cada perfil do facebook carrega tantas tragédias privadas quanto momentos cor de rosa, embora só estes últimos entrem na narrativa. É uma questão de agenda.

Mas do que eu estava falando mesmo? Sim, de projetos longos e demorados! Nesses últimos dias, morreu o flautista Altamiro Carrilho e numa das reportagens que assisti fiquei sabendo que ele começou a tocar flauta bem novinho e ele mesmo as fazia, furando bambu com ferro quente:

“Eu comecei a fazer as minhas próprias flautinhas: serrava perto do ombro do bambu, deixava toda a parte aberta, e ia furando com um ferro quente. Furava e tocava, tirava uns sons agradáveis tocando sozinho em casa. Nessa época, eu morava em Niterói. Um dia, o carteiro que entregava a nossa correspondência parou, deu as cartas pra minha mãe e de repente perguntou: ‘Que som bonito! Quem toca flauta aí na sua casa?’. Minha mãe respondeu: ‘Não é flauta profissional não, é uma flautinha de bambu, o meu filho mesmo que faz e tal, assim, assim’… O carteiro pediu para me conhecer. E lá vim eu com a flautinha na mão, menino, onze anos por aí… O carteiro me perguntou se eu queria estudar flauta. Eu disse quero, e ele começou a me dar aulas gratuitas. Ainda emprestava a flauta transversa dele para que eu estudasse. Em casa, eu me virava com a flautinha de bambu mesmo”. O trecho veio daqui.

Temo pelas crianças e adultos incapazes de se dedicar a qualquer coisa por mais de algumas horas ou de completar projetos extra-escolares ou não-profissionais, sim, porque estes você tem obrigação de fazer, então você faz. A gente tem que viver tudo tão intensamente, não é? É isso que as propagandas discursam por aí: você tem que viver cada dia como se fosse o último, senão corre o risco de você ser um mongo e sua vida não valer nada! Mas tem alguém que celebra, comemora e pula de pára-quedas todo dia? Tem não, todo mundo tem suas misérias pra remediar e tratar. A maioria dos dias são ordinários, não acontece nada de espetacular. É incrível como parece que a geração que vem por aí tem dificuldades de aceitar isso. Acho que haverá cada vez menos crianças dispostas a fazer de um bambu uma flautinha. Fazer flautinhas não é viver intensamente, porque demora, porque é introspectivo, é uma felicidadezinha que não se esbanja, porque o sujeito tem que ficar esquentando ferro e furando bambu e provavelmente não vai ganhar dinheiro, nem fama e as meninas da escola não vão querer saber de um menino assim. Ou seja, flauta é uma coisa “idiota” de se fazer! Ainda é capaz de a criança ser alvo de chacota das crianças mais “espertas”, que compram tudo pronto. As coisas estão estranhas… Lembro que o Mário Sérgio Cortella dizia num Café filosófico que as crianças hoje já não querem mais estudar piano clássico, porque demora, toma uma década de estudo, horas por dia… Imagina só o desatino!

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Minha experiência com a amamentação ou “o inferno são os outros”

Aug 03

A segunda mamada do Eric, ainda na casa de parto

Estamos na semana mundial da amamentação e venho lendo alguns artigos ou posts sobre o tema que foram caindo no meu colo nos últimos dias. Vejo que as pessoas em geral estão falando mais abertamente sobre o assunto e que ele gera polêmicas e polemiquinhas. Aliás depois que engravidei reparei mais em como tudo que envolve a maternidade gera discussões sem fim, atritos, discordâncias, militâncias, paranóias… enfim, ser mãe parece que é mais complicado hoje em dia com tantas informações e opiniões. Chego a pensar que tudo isso às vezes atrapalha, confunde e assusta. Parir, amamentar, ser mãe deveria ser algo mais natural, sem tantas regrinhas, encanações e, sobretudo, com menos gente falando, falando e falando no seu cangote.

Bom, só posso falar sobre a minha experiência e minha opinião, então sem querer ser repetitiva, é minha experiência e as conclusões (sempre transitórias) que formulo a partir dela. Não acho que o que ocorre comigo deva necessariamente ocorrer com outras mães, não acho que os bebês são iguais e se comportam como maquininhas e nem que se uma coisa deu certo aqui em casa, vai dar certo com outras crianças, com outros casais. Não, eu acredito fortemente naquela premissa básica, boba até, mas complexa, difícil de aceitar, de que cada um é cada um. Isto posto, já li depoimentos de muitas mães dizendo que amamentar é difícil. Para mim não está sendo até aqui por muitos motivos, alguns, racionais, consigo explicar, outros talvez seja simplesmente sorte ou, se preferirem, uma conjunção de fatores que me favoreceram e eu não sei bem identificá-las. Talvez tenha sido difícil nas primeiras semanas, porque meu filho, hoje com 6 meses, não dormia quase nada, mas a dificuldade teve mais a ver com a inconstância do sono dele e com a minha adaptação a uma nova rotina do que com a amamentação em si. Isso é fato: leva-se um tempo até o bebê adotar uma rotina de sono e de mamadas, claro! Uma criatura que acabou de chegar ao mundo não vem programada.

Amamentar é um trabalho de 2 e só 2, mãe e bebê. Não dá pra compartilhar esse trabalho com o pai, a avó, a sogra. É uma atividade em tempo integral, dia e noite, sem horário fixo, não dá pra deixar pra depois, nem tirar folga. Você pode ser requisitada enquanto come, dorme, toma banho… Você, mamãe, tem que ficar junto da cria o tempo todo, ainda mais se amamentar sob livre demanda, ou seja, dar mamá sempre que o bebê quiser. Você vive sim um período de claustro, as saídas de casa já não são tão fáceis, nem tão simples. Não dá mais pra jantar fora com a frequência de antes, pegar um cineminha, ver os amigos, tudo isso diminui tipo 95%, pelo menos nos primeiros meses. Dá uma sensação de solidão, de estar só no mundo com uma criança nos braços, sem saber direito o que fazer com ela. Eu não tive depressão pós-parto, mas pude ver, ali da beira do abismo, o que é isso, porque antes eu não entendia ou não tinha parado pra refletir sobre o porquê dessa tal depressão.

O principal motivo e o mais concreto para eu avaliar meu período de amamentação como relativamente “fácil” é que meu trabalho me permite ficar em casa, administrando o estúdio daqui e costurando algumas peças ocasionalmente. Eu já vinha acalentando essa ideia de cuidar do meu primeiro filho e trabalhar em casa há algum tempo e tudo se encaixou direitinho. Dá um trabalho monstro ser mãe, empresária e dona de casa tudo-ao-mesmo-tempo-agora, mas imagino que deve ser barra querer amamentar e ter que voltar ao trabalho, sentindo-se pressionada pela empresa e pela carreira, que fica ali de molho te cutucando.

Sobre as coisas que a gente deixa de fazer, eu já estava me preparando cá com meus botões para isso, para todas as privações que a amamentação exclusiva impõe, mas é claro que quando o bebê chega e a gente sente na pele tudo isso, toda a preparação fica só na teoria e você vê que o buraco é mais em baixo. Mas também nesse quesito, posso dizer que não tive grandes dificuldades, meu filho não teve dificuldades para mamar, não sofreu com cólicas sem fim, ganha bastante peso todo mês, ainda não ficou sequer resfriado e meu leite é abundante. Sim, amamentar cansa, cansa muito, mas ainda não tive um momento-limite, em que me vi exausta e sem saco para dar de mamar. E, sério mesmo, eu odeio reclamar, não é por Deus, por medo de retaliações místicas ou qualquer outra coisa, mas simplesmente porque não tem cabimento, tendo uma criança tão saudável, sorridente, que não me dá nenhum trabalho além do esperado.

Vou cair aqui na tentação de nos comparar às mães de antigamente. Talvez nossas avós não tivessem todos esses problemas “modernos” para amamentar, porque, vejam, era esse o trabalho delas. Elas não tinham carreira, não tinham muitas atividades fora de casa e viviam para os filhos, então não enfrentavam tantos dilemas e angústias, simplesmente aceitavam o desconforto da amamentação com muita naturalidade, porque era o que tinha que ser feito.

Um capítulo à parte nessa história de amamentação e maternidade em geral são os outros, essa entidade enxerida e tratante que tem mil pitacos na ponta da língua pra te dar (e você nem pediu, hein!) e que mais atrapalha do que ajuda. Não vai faltar gente pra te dizer que o que você está fazendo tá errado, que o jeito que ela fez com os filhos é o mais certo. Há senhorinhas com filhos criados que vão te passar instruções passo-a-passo, como se criar filhos fosse receita de bolo e todos os guris fossem iguais. Tem quem vai te achar idiota por não dar chupeta, vão se assustar quando souberem que você não dá chazinho nem água, porque o neném deve estar morrendo de sede, vão dizer que seu leite não sustenta, que seu leite é fraco, vão dizer que você é pequenininha pra amamentar. E quando você diz que pretende amamentar até os 2 anos? Pra que, né! Vão te achar uma coitada ou desocupada, vão se escandalizar, porque acham feio, vão dizer que a criança não vai comer, vai ficar mimada, não vai nem querer ir pra escola e você vai sofrer com tanto apego e, claro, a culpa será toda sua, não ouse reclamar depois! É impressionante a campanha silenciosa que se instala para nos desincentivar a amamentar! Se o Sartre não fosse homem eu poderia apostar que ele estava amamentando quando disse que o “inferno são os outros”. Sim, porque se você entrar na piração dos outros, entra numa crise existencial mesmo!

Mães, amamentem, vale a pena! Vale todo o esforço só de ver seu filho saudável, se desenvolvendo lindamente todos os dias! Se puderem, amamentem além dos 6 meses preconizados pelos OMS, tentem, mas se não puderem não se martirizem, não deixem que os outros te martirizem porque você dá ou não dá de mamar pro seu filho. A decisão é do casal, da mãe em última instância, e só precisa de bom senso para equilibrar os prós e contras e ajustar a amamentação na sua vida, na sua realidade. O resto é resto.

 

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A força broxante do “não pode”

Sep 19

Outro dia, no rádio, um ouvinte perguntava a um comentarista de vinhos se ele podia abrir uma garrafa de uma safra de 1999, se não me engano, de um vinho importado não-sei-da-onde para harmonizar com um determinado prato que ele ia fazer. Aí eu fiquei pensando em como as pessoas se impõem regras para um monte de coisas e ficam meio bitoladas. Tem mesmo que perguntar se pode abrir? Eu entendo que os especialistas no assunto devem ter provado inúmeras garrafas e realmente devem conhecer as melhores combinações, safras e o melhor momento para degustar a bebida, mas é tão, tão legal apenas beber uma taça de vinho, meu pai, sem se importar se ela é carésima, baratinha, se ela combina com seu jantar, assim, sem compromisso nenhum com ninguém, com nenhuma cartilha, com nada! Gente, isso é errado?

Há algum tempo assisti na TV um sommelier dizendo que o melhor vinho do mundo é aquele que agrada o seu paladar. Vou ficar devendo o nome da pessoa, porque realmente eu não o conhecia e não me atentei na hora a creditar a frase, mas achei tão alentador e libertador, que guardei comigo. Genial! Deveria ser óbvio, mas as obviedades hoje em dia parecem carregar um toque de gênio de tanto que a gente complica as coisas e corre atrás do próprio rabo. Eu tenho as minhas combinações bacanas de pratos e vinhos, são poucas, é verdade, porque não sou assim obcecada pelo assunto, mas posso dizer que experimentei e gostei, agradou e me rendeu ótimos momentos! Também, vai ver, não tenho ninguém para impressionar, nenhum amigo sabe-tudo, vasto entendedor do assunto, que me faça aprofundar no tema a cada refeição que ele faça em minha casa.

Vocês viram né, que estamos fazendo um sofá! Já me perguntaram se eu sei fazer um sofá ou onde eu aprendi. Eu repassei a pergunta ao marido, porque na verdade é ele que está com a mão e o coração na massa. Ele me disse que não sabe fazer, apenas viu pessoas fazendo na TV e nas tapeçarias e imaginou que não poderia ser assim tão complicado. Simples assim. O “não pode” não existe na vida dele! Ele é uma pessoa tão solta, livre e independente… daquelas que sempre acham que dá e voam alto. Vai ver é isso uma das muitas coisas que me fizeram caminhar esses longos anos com ele até aqui. Com ele aprendi a ser mais otimista e a acreditar mais! Acho que o espírito crafter tem muito a ver com isso, com desprendimento, achar sempre que pode, que vai dar certo, não temer o erro e sempre, sempre tentar!

Vivo recebendo e-mails que me perguntam onde aprendemos a costurar, qual a técnica, o curso, como faz… não aprendemos em lugar nenhum! Fomos tentando, errando muito, fazendo de novo e de novo até achar que estava digno para presentear ou vender a alguém. Eu nem sei se sabemos costurar de verdade, porque o trabalho aqui no estúdio é tão intuitivo! A gente não tem só um jeito de fazer um bolsinho ou uma alça, a gente só faz da melhor maneira possível, que resulte no melhor produto, é isso que importa! Aqui no Tofu a gente tá sempre tentando e fazendo de novo! Aqui não tem nada pronto e acabado, a gente só vai descobrindo coisas novas todo dia e melhorando! Não tem segredo, tem é muito trabalho!

Não saber o jeito “certo” de fazer uma coisa impede muita gente de tentar e instala aquela atmosfera negativa do “eu não consigo, porque ninguém vem me ensinar”. Acho que os melhores artesãos compreendem que muito do que eles sabem veio com a lida diária com os materiais e instrumentos que operam e não de uma cartilha pronta e mastigada. Muitos empreendedores inventam suas próprias máquinas, suas próprias ferramentas e criam empresas, produtos e serviços fantásticos. Eles não estavam preocupados com o “não pode”.

Juro que se eu estivesse com o dilema de poder ou não poder abrir uma garrafa de vinho que comprei com meu dinheirinho, a ponto de ter que consultar alguém que eu nem conheço, eu ia ficar preocupada…

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um pouco de amor nas relações de trabalho, plis!

Aug 25

foto: Corbis

Eu, novamente, tratando de notícia “antiga”. Sei que o assunto já rendeu por aí, foi um tanto chocante, é certo, apesar de todo mundo estar carequinha de saber que grandes confecções se utilizam de trabalho semi-escravo (como não?). Por que me diz como uma grande rede de fast-fashion consegue vender a rodo, trocar de coleção a todo minuto, manter este ritmo ensandecido empregando pessoas corretamente aqui no Brasil, onde as leis trabalhistas são tão atrasadas? Tem alguma coisa errada nessa equação! Antes que me condenem, eu não vou defender o grande empresário que faz uma coisa dessas, é claro! Mas também acho muito fácil jogar a culpa na ganância vergonhosa dessas empresas e mês que vem, quando o assunto for tão last season que já vamos ter esquecido, a gente continuar consumindo as réplicas da última it-bag do momento, fruto do trabalho de bolivianos, paraguaios, peruanos que estão se matando para disputar as tais vagas de trabalho desumanas que essas grifes oferecem. A gente acha que as condições de trabalho deles é aviltante, um lixo, mas aquilo é tudo que eles têm! Já cansei de ler relatos de bolivianos dizendo que no país deles é muito pior e que lá eles passariam fome. Eu gostaria de saber se alguém aqui ou na Bolívia vai oferecer um emprego digno para todos eles, senão como faz? Também é muito fácil a gente se escandalizar, mentalizar em coro um “bem feito!” quando os fiscais fecham essas oficinas, fazendo de conta que o problema está resolvido, que aqueles imigrantes vão evaporar. Não vão! Provavelmente eles vão para a oficina da rua de cima e vão continuar trabalhando do mesmo jeito. Então acho são a gente sair do pedestal, dar uma freada na escandalização do problema, porque nós e todo nosso consumismo também fazemos parte dessa balbúrdia toda.

Eu não vou jurar e alardear que nunca mais comprarei nenhuma pecinha nessas lojas para sair bem na fita, não sou hipócrita, não sou radical em nenhum assunto e nem tenho tempo e paciência para idéias imutáveis e  nem para nenhum tipo de militância oca, porque a vida é corrida, vc come num McDonald’s da vida de vez em quando, no meio do seu dia-a-dia maluco, mesmo que isso fira seus princípios da boa mesa e da boa saúde. E eu vou me martirizar por isso? #not

ó, todo esse bafafá em torno do assunto só me faz valorizar ainda mais meu próprio trabalho e o de todas as moças e moços dignos e honestos que mantêm com muita fé e força uma produção artesanal no Brasil. Só a gente sabe como é zelar por todos os produtos, materiais e pessoas envolvidas no processo. Não é nada fácil para um pequeno estúdio garimpar constantemente os melhores tecidos, pagar um preço alto por cada metro, fazê-los combinar e dialogar entre si e com todos os aviamentos da peça, fazer questão dos pormenores, mesmo que eles não fiquem aparentes no produto final, optar pelo melhor cursor de zíper do mercado, mesmo que custe o dobro daquele xing-ling e que a maioria das pessoas nem perceba, preocupar-se com o bem-estar de quem trabalha conosco, de quem nos visita e mantém contato conosco, mesmo de longe. Sim, eu poderia contratar uma facção predatória, fazer 500 peças por dia, como muitas pessoas me recomendam, mas eu estaria enganando a quem? A mim, principalmente, porque não acredito que bons produtos saiam das mãos e cabeças de pessoas tristes, de ambientes cinzas, decrépitos, sem luz, sem alegria. E não, eu não tenho sonhos grandiloquentes de ficar milionária, poderosa e socialite às custas da exploração do outro, por isso adoro e valorizo cada coisinha que tenho, amo o que faço, cultivo e conto pra mim mesma a história do meu estúdio nas horas difíceis e também nos momentos de celebração, porque, acreditem, no final é isso que fica!

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