ser mãe é fazer negócios com a vida, mas a gente sempre fica pra trás…

Sep 25

Minha mãe e meu filho, aos 20 dias
 

Resolvi aqui cometer o impropério de falar sobre o que muda na gente com a chegada de um filho. Pode ser uma leitura enfadonha, porque não dá pra contornar os clichês e a afetação. Portanto, talvez recomende que os impacientes e aqueles que não se interessam pelo universo dos pais e das crianças dispensem este post.

Estive por meses em busca de uma palavra, uma só, que comportasse prodigiosamente toda a experiência de ser mãe e acho que a encontrei, pelo menos por ora, e é esta: rendição. Foi em estado de rendição que me vi quando lancei olhos ao meu filho pela primeira vez e é isto ainda que sinto ao vê-lo diariamente e provavelmente o continuarei fazendo até deixar de ser mãe, seja lá como e se isso ocorrer… Não se trata de pieguice, é apenas algo elementar: não há mais nada a fazer a não ser render-se à pessoa que é posta ali nos seus braços, na sua vida, aquele ser prematuro que carrega seu código genético, suas expectativas (embora eu buscasse repreender as minhas) e esperanças. Você assina ali, naquele primeiro colo, uma procuração simbólica e torna-se agente daquela criatura, seja ela como for, com quantos dedos tiver: rendição. É curioso como as palavras, que não têm peso nenhum na vida prática, são importantes para sintetizar e compreender alguma ideia ou algum sentimento e poder processá-los e armazená-los.

Os acontecimentos que deambulam em torno da chegada de um filho contêm todos uma certa ironia e um didatismo que a natureza e nós mesmos nos encarregamos de criar para nos preparmos para a vida nova que aquela pequena pessoa traz consigo. Veja o tanto que a parafernália que um bebê moderno “precisa” (carrinho, cadeira para carro, cadeira de descanso, berço, brinquedos etc) ocupa da paisagem doméstica. Casas com crianças vivem abarrotadas, como se instruíssem os pais, dizendo-lhes, em tom de zombaria, que seu tempo e suas vidas também serão tomados de arroubo, sem cerimônias.

Meu longo trabalho de parto, meu parto e os momentos que se sucederam a ele também contiveram um quê de preleção, como se desenhassem um panorama do que viria a seguir. Fosse em outras circunstâncias eu certamente sucumbiria à exaustão dos primeiros momentos do pós-parto, cairia em sono profundo e meu corpo se recusaria a fazer o que quer que fosse exigido dele, mas ali eu não podia, porque o pequeno tinha que ser alimentado, eu tinha que tirar forças de algum reservatório de energia que eu nunca visitara, tinha que ensiná-lo, estimulá-lo a mamar, porque ele passaria os próximos meses em dependência irrestrita dos meus seios. Ele aprendeu rápido, eu também. Percebi que a maternidade tem tudo a ver com usar esse estoque extra de energia, força e coragem que eu não conhecia. Mas o ensinamento que ficou daqueles primeiros momentos é que ser mãe, assim como se diz do amor, é intransitivo. A passagem para a maternidade não é gradual, nem amena, é taxativa e irrefreável, como um trabalho de parto ilustra à perfeição (quem souber enxergar uma fina ironia nessa experiência talvez possa extrair algum proveito prático). Há pouco o que elaborar. Há muito mais de natureza em ser mãe do que gostaríamos. Consumimos teorias, regras e mandamentos de revista na tola esperança de ter controle sobre alguma coisa. Eu consumi, li livros, frequentei fóruns e comunidades virtuais para me fazer pertencente a esta nova classe de mães hiperinformadas, detentoras de vasto vocabulário obstétrico, que conhecem uma dúzia de célebres autores da área, para ganhar alguma confiança e talvez “aprender” a ser uma parideira e uma mãe melhor do que foram minha mãe, minha avó e quiçá toda a linhagem de mulheres da minha família (é grande a pretensão!), como se a maternidade fosse mesmo algo pênsil, linear, cartesiano, que se estuda e escrutina, mas tudo que li e absorvi, de repente, era tão pouco e insignificante ao atravessar a décima madrugada insone e desoladora. Mais valia o conforto de imitar minha mãe ninando meu filho do que tudo o que dizem os letrados da área, porque aí sim encontrava algo que acalmava não só ao bebê, mas principalmente a mim, algo que fazia sentido àquela altura. A intenção aqui não é desdenhar da informação e do conhecimento, claro que não! Mas nosso intelecto, mesmo atulhado de conhecimentos sobre a maternidade, está longe de nos trazer completude nesta jornada.

Toda minha preparação para o parto, o conhecimento sobre a fisiologia, sobre as fases do parto, o relato de outras mães, não me deram nenhum controle ou calmaria nas horas decisivas. Ali nós somos todas corpo e não cabeça, a experiência é animalesca, o racional pesa quase nada. Temos a estranha ilusão de que sabemos tudo porque conhecemos os nomes científicos das coisas, mas isso é mera informação de almanaque. Com um bebê em mãos, fui, então, despindo-me de teorias e regras, amamentando, alimentando e cuidando do meu filho sem me bitolar em livros, compêndios, fóruns e toda a verborragia que é vendida em sites, blogs, livros e tantas outras paragens, porque sou capaz de cuidar de uma criança com o básico: instinto, bom senso e paciência, conjunto que não está à venda em gôndolas de supermercado, nem na internet, e talvez, por isso, cada vez mais escasso.

A convivência com meu filho só faz reforçar em mim a noção de que os acontecimentos e os fatos da vida são, em grande parte, relativos e estão longe ou fora do meu controle e ok que seja assim. Aceito, assim como aceito meu filho do modo como ele veio e amarei a pessoa que ele se tornar, mesmo que ele não supra as expectativas que eu tenho ou venha a ter. Filhos podem ser um belo exercício para domar nossos narizes empinados, denotativos de quem sabe tudo e pode tudo. Toda nossa vaidade intelectual, científica, enciclopédica vira pó. A verdade é que podemos muito pouco quando se trata deles. Eles ganham o mundo muito rápido e estão sujeitos a morrer, a sumir, a serem retirados de nós, sem podermos fazer nada. Há absurdo maior que este? Como pode o mundo continuar o mesmo depois que uma mãe perde um filho? É dolorosa essa impotência e essa solidão. É como se a vida nos remetesse um pacote frágil que abrimos às cegas, sem saber bem o que tem lá dentro, nutrimos, cuidamos e conduzimos em devoção seja quem e como ele for para no final, findo o serviço, devolvê-lo ao mundo, sem receber nada em troca, correndo sempre o risco de perdê-lo. Não há garantias, nem segurança, ainda assim depositamos na criança o melhor de nós, o amor absoluto. É um pacto e tanto.

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Minha experiência com a amamentação ou “o inferno são os outros”

Aug 03

A segunda mamada do Eric, ainda na casa de parto

Estamos na semana mundial da amamentação e venho lendo alguns artigos ou posts sobre o tema que foram caindo no meu colo nos últimos dias. Vejo que as pessoas em geral estão falando mais abertamente sobre o assunto e que ele gera polêmicas e polemiquinhas. Aliás depois que engravidei reparei mais em como tudo que envolve a maternidade gera discussões sem fim, atritos, discordâncias, militâncias, paranóias… enfim, ser mãe parece que é mais complicado hoje em dia com tantas informações e opiniões. Chego a pensar que tudo isso às vezes atrapalha, confunde e assusta. Parir, amamentar, ser mãe deveria ser algo mais natural, sem tantas regrinhas, encanações e, sobretudo, com menos gente falando, falando e falando no seu cangote.

Bom, só posso falar sobre a minha experiência e minha opinião, então sem querer ser repetitiva, é minha experiência e as conclusões (sempre transitórias) que formulo a partir dela. Não acho que o que ocorre comigo deva necessariamente ocorrer com outras mães, não acho que os bebês são iguais e se comportam como maquininhas e nem que se uma coisa deu certo aqui em casa, vai dar certo com outras crianças, com outros casais. Não, eu acredito fortemente naquela premissa básica, boba até, mas complexa, difícil de aceitar, de que cada um é cada um. Isto posto, já li depoimentos de muitas mães dizendo que amamentar é difícil. Para mim não está sendo até aqui por muitos motivos, alguns, racionais, consigo explicar, outros talvez seja simplesmente sorte ou, se preferirem, uma conjunção de fatores que me favoreceram e eu não sei bem identificá-las. Talvez tenha sido difícil nas primeiras semanas, porque meu filho, hoje com 6 meses, não dormia quase nada, mas a dificuldade teve mais a ver com a inconstância do sono dele e com a minha adaptação a uma nova rotina do que com a amamentação em si. Isso é fato: leva-se um tempo até o bebê adotar uma rotina de sono e de mamadas, claro! Uma criatura que acabou de chegar ao mundo não vem programada.

Amamentar é um trabalho de 2 e só 2, mãe e bebê. Não dá pra compartilhar esse trabalho com o pai, a avó, a sogra. É uma atividade em tempo integral, dia e noite, sem horário fixo, não dá pra deixar pra depois, nem tirar folga. Você pode ser requisitada enquanto come, dorme, toma banho… Você, mamãe, tem que ficar junto da cria o tempo todo, ainda mais se amamentar sob livre demanda, ou seja, dar mamá sempre que o bebê quiser. Você vive sim um período de claustro, as saídas de casa já não são tão fáceis, nem tão simples. Não dá mais pra jantar fora com a frequência de antes, pegar um cineminha, ver os amigos, tudo isso diminui tipo 95%, pelo menos nos primeiros meses. Dá uma sensação de solidão, de estar só no mundo com uma criança nos braços, sem saber direito o que fazer com ela. Eu não tive depressão pós-parto, mas pude ver, ali da beira do abismo, o que é isso, porque antes eu não entendia ou não tinha parado pra refletir sobre o porquê dessa tal depressão.

O principal motivo e o mais concreto para eu avaliar meu período de amamentação como relativamente “fácil” é que meu trabalho me permite ficar em casa, administrando o estúdio daqui e costurando algumas peças ocasionalmente. Eu já vinha acalentando essa ideia de cuidar do meu primeiro filho e trabalhar em casa há algum tempo e tudo se encaixou direitinho. Dá um trabalho monstro ser mãe, empresária e dona de casa tudo-ao-mesmo-tempo-agora, mas imagino que deve ser barra querer amamentar e ter que voltar ao trabalho, sentindo-se pressionada pela empresa e pela carreira, que fica ali de molho te cutucando.

Sobre as coisas que a gente deixa de fazer, eu já estava me preparando cá com meus botões para isso, para todas as privações que a amamentação exclusiva impõe, mas é claro que quando o bebê chega e a gente sente na pele tudo isso, toda a preparação fica só na teoria e você vê que o buraco é mais em baixo. Mas também nesse quesito, posso dizer que não tive grandes dificuldades, meu filho não teve dificuldades para mamar, não sofreu com cólicas sem fim, ganha bastante peso todo mês, ainda não ficou sequer resfriado e meu leite é abundante. Sim, amamentar cansa, cansa muito, mas ainda não tive um momento-limite, em que me vi exausta e sem saco para dar de mamar. E, sério mesmo, eu odeio reclamar, não é por Deus, por medo de retaliações místicas ou qualquer outra coisa, mas simplesmente porque não tem cabimento, tendo uma criança tão saudável, sorridente, que não me dá nenhum trabalho além do esperado.

Vou cair aqui na tentação de nos comparar às mães de antigamente. Talvez nossas avós não tivessem todos esses problemas “modernos” para amamentar, porque, vejam, era esse o trabalho delas. Elas não tinham carreira, não tinham muitas atividades fora de casa e viviam para os filhos, então não enfrentavam tantos dilemas e angústias, simplesmente aceitavam o desconforto da amamentação com muita naturalidade, porque era o que tinha que ser feito.

Um capítulo à parte nessa história de amamentação e maternidade em geral são os outros, essa entidade enxerida e tratante que tem mil pitacos na ponta da língua pra te dar (e você nem pediu, hein!) e que mais atrapalha do que ajuda. Não vai faltar gente pra te dizer que o que você está fazendo tá errado, que o jeito que ela fez com os filhos é o mais certo. Há senhorinhas com filhos criados que vão te passar instruções passo-a-passo, como se criar filhos fosse receita de bolo e todos os guris fossem iguais. Tem quem vai te achar idiota por não dar chupeta, vão se assustar quando souberem que você não dá chazinho nem água, porque o neném deve estar morrendo de sede, vão dizer que seu leite não sustenta, que seu leite é fraco, vão dizer que você é pequenininha pra amamentar. E quando você diz que pretende amamentar até os 2 anos? Pra que, né! Vão te achar uma coitada ou desocupada, vão se escandalizar, porque acham feio, vão dizer que a criança não vai comer, vai ficar mimada, não vai nem querer ir pra escola e você vai sofrer com tanto apego e, claro, a culpa será toda sua, não ouse reclamar depois! É impressionante a campanha silenciosa que se instala para nos desincentivar a amamentar! Se o Sartre não fosse homem eu poderia apostar que ele estava amamentando quando disse que o “inferno são os outros”. Sim, porque se você entrar na piração dos outros, entra numa crise existencial mesmo!

Mães, amamentem, vale a pena! Vale todo o esforço só de ver seu filho saudável, se desenvolvendo lindamente todos os dias! Se puderem, amamentem além dos 6 meses preconizados pelos OMS, tentem, mas se não puderem não se martirizem, não deixem que os outros te martirizem porque você dá ou não dá de mamar pro seu filho. A decisão é do casal, da mãe em última instância, e só precisa de bom senso para equilibrar os prós e contras e ajustar a amamentação na sua vida, na sua realidade. O resto é resto.

 

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