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Reforma de vestido ou porque não pratico rolezaum no shopim

Prometo poupá-los de ter que ler aqui teorias profundas sobre o mais novo fenômeno do momento: os rolezinhos. Portanto, apesar do título aí em cima, podem continuar lendo este post sem medo, porque juro que não sei teorizar sobre gente se reunindo em shopping e seguranças/polícia descendo o pau. Mas explico: faz uns 5 anos que peguei um banzo geral de shopping por motivos variados. Primeiro, porque não moro mais perto de um, depois porque compro quase tudo de que preciso pela internet. Tem também o fato de os shoppings cobrarem estacionamento. Não acho que seja mera pão-durice da minha parte, acho descortês cobrar do freguês que vai até o seu estabelecimento disposto a comprar, ainda mais quando o faturamento do shopping já é tão alto. Enfim… Aquilo também está cada vez mais lotado, com produtos cada vez mais caros e meia-boca. Então não fica difícil concluir que eu não tenho mais nada pra fazer lá! Claro que às vezes eu vou, porque não dá pra fugir e você precisa de algo que só tem lá ou é mais fácil conseguir lá e não sou dada a radicalismos, mas vou nos horários mais esdrúxulos e ermos, tipo 10h da manhã (sou uma pessoa que espera os estabelecimentos abrirem, geralmente acompanhada de velhinhos e velhinhas fofas. Adoro!). Com um filho pequeno, cada vez mais esperto, também não quero que ele associe shopping a um passeio ou programa de família, em que você só vê mercadorias, compra, come comida ruim, paga caro e, de brinde, ainda pode ser esnobado pelas vendedoras se não está com roupas de grife (até quando isso?!). Quero que ele entenda que aquilo lá é apenas um amontoado de lojas, aonde a gente vai quando precisa comprar alguma coisa que tem lá. Só isso!

O fato de costurar e ter birra de shopping e de provadores me estimula muito a comprar roupas online. Costurar, claro, ajuda a aplacar aquele medinho de a peça não servir. Dá uma sensação de poder (yes)! Às vezes, compro peças que ficam compridas demais, largas demais, não gosto de algum detalhe… mas sei que posso arrumar para ficar bem em mim e eu até gosto de reformar!

Estava com este vestido no guarda-roupas há uns meses. Achei que tinha potencial, afinal o tecido é bom e está bem costurado, mas vesti e me senti fugida de um pré-operatório, sabe, ficou com cara de hospital! Resolvi dar uma acinturada e o cortei ao meio. Foi preciso um tantinho de coragem (glupt!)

Aí overloquei e fiz pences (6 na frente e 2 atrás):

Dei uma franzida na saia para se ajustar à parte de cima, juntei as peças e deu um vestido bem legal, que estou usando muito! A foto abaixo não mostra muito bem como ficou, eu sei (na verdade, fiz a foto pra mostrar a bolsa). É uma das únicas que tenho, mas acho que dá pra ver que agora tá vestindo bem!

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e a gente cresce…

A contagem se foi, os fogos explodiram, 2013 passou e… surpresa! Nada em mim mudou.

Admito que costumava dar mais atenção e valor às passagens de ano, às promessas, a todo apelo místico e otimista que nos inunda nesta época. Hoje não mais. Os fins de ano são períodos gostosinhos, de descanso, de encontros agradáveis (ou não!), de viagens, de acordar um pouco mais tarde, não os inflo mais com a pressão da expectativa, de esperar por algo que não sei se vem e acho que nem quero saber. A vida já está tão boa como está! Às vezes acho que se tivessem feito uma entrevista comigo antes de eu nascer, quando eu era só um pozinho de estrela, e me pedissem pra escolher a vida que quero, optando por algumas coisas em detrimento de outras (não se pode ter tudo, claro!), minha vida seria exatamente esta que levo agora. Na adolescência os pedidos de ano novo costumam ser tão ambiciosos: carreira promissora, a viagem dos sonhos, um namorado legal, um futuro brilhante. Os anos passam e a lista diminui, o ego diminui junto (pra quem tem juízo) e os pedidos se resumem a saúde, que é realmente o setor que está totalmente fora do nosso controle. Talvez a gente passe a acreditar mais em nossas próprias forças, pare de esperar coisas do além ou de terceiros, e dê importância maior ao presente. Paramos de lamber o futuro, porque, afinal, ele é tão frágil e escorregadio. Qualquer besteirinha que a gente faça hoje e pimba, o futuro imaginado ontem vai solenemente pra cucuia! Claro que ganhar anos é perder um pouco do viço, da bobeira alegre de quem tem poucos medos, mas também é deixar de pensar que sabe tudo (ai, que alívio saber pouco!), deixar de acreditar em contos da carochinha. A gente amansa, dá mais importância para as pequenezas, os nomes das plantas, as tabelas nutricionais dos alimentos, a instalação do chuveiro, o desperdício de energia, de tempo… enfim de repente temos todas as “manias de velho” que tanto irritam os que têm menos de 20 anos. As opiniões deixam de ser absolutas, porque afinal tudo é transitório, até nossas certezas. A gente já percebeu, já calejou. Os anos trazem também a fatídica constatação de que sua mãe estava certa quando dizia a frase mais odiosa e profética de todos os tempos: “você vai entender quando crescer!”. Estou convencida de que em algum momento, por mais que eu evite, também soltarei esta pérola ao meu filho e ele vai me odiar eternamente – ou até ele crescer e entender, claro!

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muito obrigado! muito!

E mais um ano se vai a toda velocidade. Um ano mais velha. Filho com quase 2 aninhos e o mundo todo pela frente. Um amor que só cresce. Expectativa de mudanças para 2014. Sensação de que neste ano conheci um pouco mais de mim. Gratidão a todos os envolvidos: família, amigos, clientes, seguidores, leitores. Tudo que a gente constrói é feito de pequenas pecinhas que as pessoas, às vezes mesmo sem se darem conta, nos concedem e compartilham. Todo meu afeto a vocês!

Agora é hora de sair do ar e me mandar pra cozinha e iniciar o árduo serviço de comer-beber-comer-beber e comer mais um pouco!

Cheers!

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o Natal, esse folgado!

*alerta: este post contém mimimi

Está chegando aquela época do ano, indefectível, que chega toda espalhafatosa, mal-educada, que não pede licença e quando a gente vê, já tá na nossa sala, na cozinha, esparramada pela casa em forma de luzinhas, árvore enfeitada, panetone, peru e rabanada. Ela é cheia de melindres e protocolos esta época do ano. Tudo vai ficando com aquelas cores de sempre: vermelho, verde, dourado, tudo purpurinado, uma chatice essas convenções! Os primeiros sinais do frenesi já chegam em setembro, quando os panetones começam a ser vistos aqui e ali, quando as arvorezinhas chegam nas lojas do centro, quando os papais noéis começam a dar pinta nas vitrines. De repente estamos afogados num mar de camurça vermelha, neve sintética, hohohos e musiquinhas infernais. Não há lugar na Terra para onde fugir. O Natal é um fim de semana grande, tem todo o climão de festa e comilança e cada um anseia por ele de algum modo. Mas, como nos fins de semana, parece que o período que antecede o natal tem mais graça que a última semana do ano em si. Já viu como a sexta-feira é comemorada? Cada um solta seus rojões imaginários, mesmo que o sábado e o domingo não sejam lá grande coisa. Mais vale a promessa de dias felizes, mesmo que eles não venham. A gente é tudo bobo! Aí chega a segunda, o dia odiado, mal-humorado, trombudo e tudo começa de novo. Janeiro é uma segunda-feira grande, o mês do banzo geral! Os que podem se mandam pra praia para ignorar a segunda-feira grande e só voltar pro mundo um pouco antes do carnaval pra se preparar para outras festinhas e bebedeiras.

O Natal tem tanta promessa de felicidade que desconfio que toda sua simbologia foi feita por algum sagaz publicitário da Coca-cola, o papai-noel vermelhinho e gordo, a neve, o urso polar, os pinheirinhos, estrela cadente, tudo combina perfeitamente com a garrafinha de coca, o caminhão vermelho abarrotado de garrafas pretas naquela paisagem ártica. O Natal contém tanta felicidade e pujança que é triste! Sempre me lembro de ver na TV, num destes natais passados, uma senhora que perdera tudo numa enchente de fim de ano, até o frango assado precioso, que seria a estrela da ceia da família. Chorei pelo frango afogado dela (mmm, déjà vu: acho que já falei sobre isso aqui, perdoem-me). O fato é que as tragédias são mais trágicas nos fins de ano. As famílias sorridentes e juntinhas, recolhidas em torno de seus fartos banquetes, são um belo coice para aqueles que não têm ninguém, para os que mal tem o que comer. E as criancinhas sem-presente no meio de toda aquela propaganda ferina na TV e nas ruas? Ah, o Natal… entidade de pouco juízo, folgazão, que pode nos trazer as maiores alegrias, mas que também pode nos jogar na cara todas as nossas misérias, numa única dose. Ai, Papai Noel, seu velhinho de uma figa, eu te amo, eu te odeio!

as coisas de ontem

Há exatos 5 anos, escrevi um texto, famigerado texto, sobre o que é ser crafter hoje em dia (ou naqueles dias que já se foram). Muita gente leu na época (eu acho). Ele ainda repercute aqui e acolá. Engraçado como a gente muda, mas aquilo que a gente escreve permanece, ainda mais quando tudo fica registrado na internet, caindo no colo das pessoas mesmo depois de anos. Tem muita coisa ali que já não acho tão relevante (aliás acho que devo um post sobre o que vivi até aqui sendo crafter). Ali o Tofu Studio tinha 1 ano. Agora ele tem 6. Temos mais experiência, mais erros e acertos, a casca ficou mais grossa. Um filho nasceu nessa caminhada até aqui. Viramos pais. Desculpem o clichê, mas com um filho realmente nascem uma nova mulher e um novo homem. As prioridades mudam. As coisas todas mudam de lugar no sentido literal e figurado. Aliás acho um desatino cobrar coerência de um escritor ou de um cineasta, por exemplo, durante toda sua obra, ao longo de toda sua vida. A obra fica, mas as pessoas, ah, essas vão mudando de ideia, vão se refazendo, se reconstruindo (pelo menos as de bom senso). Acho que aquele momento (do texto) era de afirmação, de enfrentar o ceticismo dos outros, de reunir forças para inventar uma vida nova, de dar um grande salto no escuro para ser completamente independente de um salário, de certezas, de garantias. É mais fácil quando se faz isso de mãos dadas com alguém com a mesma determinação, é verdade. Todo este blog foi um vai-e-vem de humores, de tentativas e erros, de opiniões que mudaram, de inquietações que se apaziguaram e deram lugar a novos desassossegos. Na verdade, devia ter começado a escrevê-lo avisando solenemente que este blog é sobre mim, essencialmente sobre mim, sobre o que penso, sobre o que gosto, sobre o que tenho vontade de discorrer. Pode parecer óbvio, já que um blog, em tese, é mesmo sobre o autor, mas uma coisa que fui aprendendo com o tempo é que as obviedades mais óbvias devem ser ditas de vez em quando. Apesar de já ter dito em algum lugar por aqui que gosto de memórias, do passado, de recordações, não curto muito, por exemplo, reler coisas antigas que escrevi. Nunca fui lá ler os primeiros posts deste blog, talvez porque não quero ter que ser coerente com quem eu era há tantos anos, talvez porque não quero enxergar de fato o quanto me despi aqui, o tanto de sincericídios que cometi. Não sou mais a pessoa que era em 2008, quer dizer, sou, mas com outras necessidades, outras prioridades, outras incertezas. Que bom, né!

Perfeição: nunca vi, mas estou no encalço!

foto: Corbis

“Gente, as coisas que vocês fazem são perfeitas!”

Ouvimos muito essa frase, mas não, nossas coisas não são perfeitas. Há falhas que algumas clientes percebem, a maioria só nós percebemos. Algumas clientes, é verdade, são agraciadas com peças que saem do estúdio muito bem executadas, redondinhas, mas perfeitas… ah, não! Quando alguém diz que “tá perfeito!” prefiro recorrer à Nina Horta e resmungar com meus botões: “Xiii, nem percebeu que o tecido enrugou aqui neste ponto ou que o zíper está torto!”

“Perfeição não existe”, vocês vão me dizer. Essa frase, reproduzida como um mantra, é ardilosa, porque ficamos tentados a redimir nossas falhas com ela e a fazer menos do que a gente consegue. Afinal, pra quê lutar por algo que nem existe? Pra quê entrar numa briga perdida? É só pra brigar, oras! Pra aprender alguma coisa, pra fazer melhor aquilo que eu sempre fazia do mesmo jeito. Se eu não entrar nessa briga, vou fazer o quê? Ficar prostrada, vendo o mundo passar? Não, não, não! Já que estamos aqui, que façamos o melhor possível!

Se começarmos a achar que qualquer coisa está boa, se perdermos o senso crítico, porque os outros (ah, sempre os outros!) acham que somos chatos e cri-cris, ah, gente, aí o mundo tá lascado! É preciso treinar os sentidos para observar um trabalho bem feito, provar uma comida boa, tocar um bom material. Se você só estiver rodeado por coisas medíocres, até seu gosto se apequena, você se esquece do excelente, do esplêndido, de tudo aquilo que fez um “pliiim” na sua cabeça e te despertou para algo novo e inspirador. Gente cri-cri incomoda e pode ser bem mala, mas elas bem que abrem nossos olhos pra muita coisa e tem horas na vida que a presença delas é fundamental! Recomendo a todos que tenham ao menos um amigo cri-cri!

“Perfeição não existe” pode ser um convite à mesmice, à estagnação, a achar que tudo está ok do jeito que está, a se afundar no mediano. Mas, ora, se perfeição não existe, existe ao menos a ideia de perfeição, a perfeição como ideal, como horizonte. Se existe a ideia, é digno persegui-la, mesmo sabendo que nunca a alcançaremos e é aí que está a beleza nisso tudo: a consciência de nunca chegar lá, mas mesmo assim, nos darmos ao trabalho de abraçar a jornada de peito aberto, mesmo que o caminho não seja o mais fácil (geralmente nunca é, né). Afinal são essas pequenas e singelas opções que fazem a vida mais bacana e nos fazem um tiquinho melhores, nos inclinam um pouquinho mais a uma felicidade verdadeira. Nós, humanos, fazemos um monte de coisas disparatadas e uma delas é, conscientemente, correr atrás do inalcançável, diferente dos bichos que correm porque não sabem que nunca vão alcançar o objetivo. Então, se nos abstermos de correr atrás do perfeito, de um sonho impossível, que graça tem viver? A felicidade está aqui hoje, no caminho, e se é pra caminhar, que seja em busca de algo extraordinário!

Para nascer com dignidade

*este post contém spoilers!

Ontem fomos ao cinema assistir a O renascimento do parto, documentário sobre o qual já comentei tempos atrás. Já viu? Se não viu, acho que não deveria perder a oportunidade, afinal todo mundo nasceu e boa parte também vai dar vida a alguém!

Fomos ao cinema e não havia nenhum cartaz anunciando o filme do lado de fora, só cartazes dos blockbusters. Imaginei que a sala estaria vazia, mas havia muitas grávidas na plateia, muitos casais, até um casal mais idoso, que imagino, já sejam avós. Muitas pessoas chorando durante o filme, eu e o marido inclusive. Choramos ao lembrar do meu parto, da difícil escalada que foi o nascimento do Eric, dos primeiros instantes dele do lado de fora de mim, de cada minuto daquele dia, que nos fez tão mais fortes. Muitas mães país afora devem ter se emocionado também ao reconstituir um dia tão marcante. Lamento, porém, que grávidas que estão vendo o filme também choram pelo descaso com que são atendidas pelos médicos, outras devem chorar porque se sentem enganadas ao se darem conta de que aquela circular de cordão que *mataria* seu filho não era indicação real de cesárea, mas era conveniente para o médico, para o hospital, para todo um sistema misógino que não dá a mínima para a mulher. Algumas, imagino, choram de indignação, porque não puderam confortar o filho nos braços assim que ele chegou ao mundo, porque foram coagidas a endossar a extração prematura, agendada, de seu filho, sem ter acesso a informação, a esclarecimentos.

O filme mostra cirurgias cesarianas, a truculência com que os bebês são retirados do útero, médicos puxando bebês pela cabeça sem o mínimo trato, as manobras de Kristeller (gente subindo em cima de barrigas para empurrar bebês), episiotomias (corte do períneo) indiscriminadas (muitas vezes sem o consentimento da mulher), a aspiração de líquido do nariz dos recém-nascidos, com uso de longas sondas, uso de colírios que fazem os olhos do bebê arderem demais, mães amarradas às mesas de parto, impedidas de segurar seus filhos… todas essas técnicas e procedimentos não tem eficácia comprovada ou podem ser evitadas. Quando foi que passamos a acreditar que este é o melhor jeito de receber um bebê, tão pequeno e frágil? Como é que deixamos esse show de horrores se instalar? Uma criatura que estava no melhor lugar do mundo e de repente se vê jogado numa sessão de torturas… E por que nossa cultura admite a humilhação e a violência contra a mulher?

Sim, o filme é parcial. Falha com isso, pois não precisava. Se houvesse opiniões de obstetras cesaristas ou das empresas de saúde, o filme poderia ganhar mais força, porque não há como defender a prática indiscriminada e abrangente de cesáreas. Mas ok, o filme passa uma mensagem tão valorosa, que já veio tarde! Precisamos de mais filmes, de mais gente discutindo abertamente sobre isto para que mudanças ocorram. Aí, por mais que eu não queira ser a chata do parto natural, senti-me compelida, moralmente acho, a ao menos deixar algo a respeito aqui neste blog.

O assunto parto normal x cesárea é espinhoso e costuma promover uma discussão muito chata, a meu ver. Costumamos defender o parto que tivemos e frequentemente há desavenças, como se nos dividíssemos em times rivais, o que é uma grande tolice. Isso só gera discussões vazias, que cumprem o papel infeliz de nos desunir, enquanto todo um sistema se aproveita do obscurantismo que se instalou em torno do parto. Toda mulher deveria se informar e ser informada sobre gravidez e parto e todas deveriam lutar pelo direito de escolha dela e de outras mulheres, pela honestidade na relação paciente-médico. Depois de ser corretamente esclarecida, a gestante tem o direito de optar pelo melhor parto para ela. A mulher deve ter soberania sobre seu corpo em todas as circunstâncias. Isso deveria ser óbvio, mas, lutar pelo óbvio parece que virou regra! Acredito que depois de bem informadas e despidas de mitos uma minoria de mulheres deseje uma cesárea, mas se mesmo assim o quiser, que ela seja feita. O que é inadmissível, o que me cansa, o que acho que atropela meus direitos é a coação, é quererem me manipular, é você chegar numa consulta com 3 meses de gravidez e declarar que quer normal e o médico te dizer que é muito difícil, que há vários complicadores no meio do caminho, que é muito cedo pra falar disso. Oi? Muito cedo? Alô? Estou grávida! E como um evento da natureza, repetido e aprimorado há zilhões de anos pelos mamíferos, pode ser assim tão complicado e difícil? Onde está o sentido nisso tudo?

O que me faz escrever um post como este é me consultar com médicos burocratas que mal olham pra mim, se detendo a prescrever exames, médicos que nunca, em consulta alguma, me explicaram como é um trabalho de parto. E se eu fosse analfabeta, e se eu não tivesse acesso ao mínimo de informação? Bom, f***-se eu, né, claro! Mulheres chegam ao final da gestação achando que o trabalho de parto acontece como nos filmes: um belo dia a bolsa se rompe, molha seu vestido e alguém te leva correndo para o hospital, onde, meia hora depois, o bebê nasce. Grávidas de 9 meses que nunca ouviram falar em tampão, que nunca foram orientadas a monitorar os intervalos das contrações… como se fôssemos meras incubadoras acéfalas, sob a tutela de médicos e planos de saúde, que agendam cesáreas no dia que bem entendem, que manipulam nossos corpos como querem, na hora que querem, sem nos ouvir, sem dar importância ao que pensamos, ao que queremos. Não precisamos de tutela!

O que pouco se fala é que cesáreas agendadas muitas vezes ocasionam partos prematuros, já que a contagem das semanas de gravidez não é precisa quando feita por meio de ultrassons tardios, após as 13 semanas (não estou certa quanto a este número) de gestação. A margem de erro é geralmente para menos. Uma criança que estaria com 37 semanas, limite para ser considerada não-prematura, por exemplo, pode estar com 35, prematura, portanto. Este bebê tem mais chances de ir pra UTI, ter complicações respiratórias, alergias… Estas são apenas algumas entre as muitas desvantagens evidentes das cesarianas eletivas (agendadas, fora do trabalho de parto).

Claro que médicos não são os únicos responsáveis por este estado de coisas. Há os interesses dos planos de saúde, o colapso do sistema público, a conivência e desinformação das grávidas e suas famílias, o medo, ou seja, é toda uma engrenagem que funciona contra o que deveria ser um evento corriqueiro e fisiológico. É portanto uma grande esquizofrenia a OMS e o Ministério da Saúde afirmarem que o parto normal é o melhor para a mãe e para o bebê se você vai ao médico, vai aos hospitais e não encontra respaldo algum, se você só encontra respostas esquivas, se você é engambelada até o final da gravidez, momento em que se cria 1001 motivos duvidosos para você entrar na faca e quando a mãe não pode mais voltar atrás. Mas a OMS não disse que o melhor é o normal? Não disse? Então que loucura é essa? Aí você quer parir naturalmente e você é louca, atrasada, riponga, diferente… no mínimo vão dizer que você é muito corajosa. Você se vê como a paciente-problema, só porque quer parir naturalmente. Parece que você está contra “o sistema” pra aparecer, por esporte, por frescura…

A única saída é sermos todas pacientes-problema! Consumirmos informação, em vez de passar a gravidez inteira em transe comprando o enxoval e o quartinho do bebê. Acreditem, essas coisas não farão a mínima diferença na vida do seu filho, são luxos de adulto para outros adultos verem. Seu bebê pode até dormir numa caixa de papelão, como se faz na Finlândia, e ninguém precisa ficar com peninha dele, porque essa coisa grotesca de status e posição social, a gente aprende quando cresce. Luxo mesmo é ter filho com dignidade, com verdade, no tempo certo. Uma médica no filme questiona: realizamos festas de casamento espetaculares para uma união que às vezes dura tão pouco, buscamos experiências extremas a vida toda e nos privamos de passar pela experiência do parto, algo que nos é dado, de graça pela vida… Enquanto nós mulheres não nos dermos conta disso, as coisas vão continuar como estão. O poder é nosso, gente!

Muito além do peso

Este documentário estava no primeiro lugar da fila dos filmes a assistir, mas mesmo assim demorou pra arranjar tempo pra ele.

Ele está disponível aqui e pode ser baixado gratuitamente em HD. Se vocês tiverem filhos, netos, sobrinhos, forem da área de educação, alimentação, é bem bacana assistir e indicar.

Acho que muitos já viram e ele não deve ser novidade para a maioria que passa por aqui, mas acho importante não perder o bonde e não deixar o assunto (alimentação e obesidade infantil) em branco. O filme mostra cenas e situações emblemáticas que sintetizam bem como andam comendo as nossas crianças. Logo no início, as imagens nos situam num povoado da Amazônia, casas de palafita com corredores estreitos ligando umas as outras, aí entra em cena o inusitado: um homem puxando um carrinho abarrotado de garrafas de refrigerante, deixando bem claro que não há fronteiras para os alimentos industrializados. Assim como o surreal barco da Nestlé que parece alcançar os povoados amazônicos mais remotos despejando seus produtos em áreas que, imagino, sejam bem servidas por alimentos nativos, que a própria natureza cuidou de fornecer. Como disse a consumidora da embarcação, cheia de biscoitos, chocolates e achocolatados no colo, “hoje estamos levando só o básico”. Há também o depoimento da moça que guardou um bolinho industrializado por 1 ano e, pasmem, ele não estragou! Nem uma pintinha de bolor, nada! Até os fungos o recusaram (se vocês assistiram o documentário Super size me, vão se recordar da experiência com a batata frita eterna do McDonalds), mas as crianças comem os tais bolinhos lambendo os beiços. Estamos comendo comida morta! O refrigerante, claro, foi insistentemente abordado. A diretora do filme, Estela Renner, repete várias vezes a mesma ação de colocar na frente das pessoas a quantidade de açúcar, gordura, sal que os alimentos industrializados contêm. É bem ilustrativo. Também tem o relato de uma médica que cita o caso de um menino que levava banana para o lanche da escola e ia comer a fruta no banheiro para não ser humilhado pelos colegas, que, claro, levavam alimentos industrializados, de marca, de personagens, sei lá… Dá uma tristeza muito funda assistir ao filme. Todas aquelas crianças com colesteral alto, diabetes, dores no joelho, cansaço, prostração, todas presas em seus corpos doentes e velhos… o que estamos fazendo?

As famílias cozinham menos, porque trabalham mais e têm menos tempo. Isso é fato. Aí eu pergunto: dá pra retornar ao tipo de dinâmica alimentar das famílias de antigamente, ou seja, cozinhar as refeições em casa, comprar mais alimentos frescos, arrumar tempo pra bancar todo o ciclo de atividades que a alimentação doméstica demanda (comprar alimentos frescos, limpá-los, armazená-los e prepará-los)? Acho que até dá, mas para muitos isso implicaria em fazer escolhas e renúncias. É tão mais fácil chegar tarde da noite em casa, abrir um pacote de hamburguer, um pacote de lasanha congelada, pedir uma pizza… Tudo tão rápido e prático que não dá nem pra pensar em perder horas na cozinha como faziam nossas avós. Aí vamos vendo que essa questão é bem abrangente e diz respeito não só à alimentação, mas a todo o estilo de vida que a maioria de nós tem adotado: muito trabalho, pouco tempo, alimentação ruim e consumismo. Se perguntarem às pessoas em geral o motivo pelo qual elas não cozinham em casa, acredito que a falta de tempo será a grande culpada. As pessoas não têm tempo, porque trabalham demais, trabalham demais porque querem ganhar mais dinheiro, precisam ganhar mais dinheiro para sustentar suas necessidades. Até aí tudo bem, tudo normal e muito justo, o problema é que estamos nos afogando num mar de “necessidades” supérfluas. Não precisamos delas, apesar de as propagandas e a manutenção de um certo status social nos façam crer que elas sejam necessárias. Logo me recordei de um depoimento um tanto comovente e muito lúcido de uma mãe fazendo toda a mea culpa do mundo sobre sua própria negligência em relação aos filhos devido ao trabalho que ela mantém para sustentar um padrão de vida que ela mesma constata que não traz felicidade, nem mesmo satisfação para ela e muito menos para os filhos, que carecem da presença materna no dia-a-dia. Penso que quem pode fazer um downgrade (trabalhar menos e ganhar menos), seja para se alimentar melhor ou para passar mais tempo com os filhos, desfruta de um belo luxo! Sim, fazer downgrade é um luxo e tanto! Há mães que criam filhos sozinhas e cumprem jornadas de trabalho intermináveis para sustentar o básico do básico e mal acompanham o crescimento dos filhos. Para essa mãe, as saídas são bem mais difíceis, não há como cortar nada do orçamento minguado, não dá para trabalhar menos. Mas me diga quem quer operar downgrades em seu padrão de vida, se tá todo mundo tão impelido a consumir, se o consumo define tanto quem a gente é hoje em dia? Poucas pessoas, mas felizmente tenho visto muitos pais parando de trabalhar que nem loucos (quando o orçamento da casa permite) que enxergam a situação com clareza e chamam a responsabilidade para si, abdicando de trocar de carro, de passar férias paradisíacas todos os anos e de se internar nos shoppings nos fins de semana, para cuidar da alimentação, da saúde e do bem-estar da família. Parece óbvio, mas não sei como chegamos ao ponto de não enxergar mais o óbvio. Quando foi que passamos a acreditar que temos que nos lascar de trabalhar para entupir nossos filhos com brinquedos, com marcas famosas e com comidas sabor pizza ou queijo cheddar? Como foi que nos tornamos presas tão débeis das grandes indústrias e de suas propagandas? Logo, logo todas essas coisas que compramos para os nossos filhos não serão mais satisfatórias e precisaremos substituí-las por coisas novas, incutindo nas crianças desde cedo a noção venenosa de obsolecência contínua, como se tudo tivesse que ser descartado o mais rápido possível para dar lugar a novas mercadorias. Eles serão assim ótimos consumidores, péssimos cidadãos! Bebês não precisam de uma montanha de brinquedos e coisas que eles nem entendem. Eles precisam do tempo dos pais, de leite materno (quando possível), de contato físico, coisas que não se compram no cartão de crédito. Crianças não precisam de brinquedos novos a cada ida às lojas, elas precisam cultivar carinho pelo que têm, precisam da nossa presença, do nosso bom senso, do nosso amor, tanto quanto da nossa repreensão e autoridade, pois elas ainda não sabem quem são.

Eu assisti ao filme por esse viés, porque alimentação é algo tão essencial, está ligada a tudo que a gente faz, ao modo como tocamos nossas vidas, como trabalhamos, como consumimos. Num certo momento do filme, o ex-publicitário Alex Bogusky, esclarece: “O poder do consumidor é enorme porque ele tem o dinheiro. É a única coisa que você tem que as empresas querem… Se você sabe quais são seus valores e você os determina. Você diz ‘Eu vou comprar o futuro que quero ver no mundo, comprando somente de empresas compatíveis com meus valores’. Certamente você vai apavorar as empresas”. Vocês já pararam para pensar no que estão comprando? De quem estão comprando? De como é feito aquilo que você compra? Como são as pessoas envolvidas naquele processo de compra? Consumo é sim um ato político e se você decidir não comprar feito um zumbi teleguiado pelas propagandas, pelas revistas, pelas modinhas passageiras, é preciso começar a se fazer certas perguntas…

sobre venenos e caipirices…

foto: Corbis

Sabe, venho de uma cidade bem pequena. Lorena é o que se pode chamar de fim de mundo. Tudo bem, fim de mundo é outra coisa, mas é ali pra lá da terra do Mazzaropi, dos jecas-tatu, depois da curva… (sou caipira de tudo, mas sei disfarçar, tá!).

Despedi-me de Lorena na mesma idade em que a gente costuma se retirar da infância (ou achar que saiu dela), aos 12, e voltei pra lá poucas vezes, talvez para não quebrar o encanto, para manter aquela coisa toda intacta, como se depositasse as boas memórias dentro de uma cápsula que levo no bolso aonde for. Ironicamente, caso o Alzheimer me pegue lá na frente, são as lembranças lorenenses as mais nítidas e acessíveis, pois dizem que os arquivos velhos são os mais vivos. Veremos. De certo, então, aos 90 (se eu durar esse tanto), tontinha das ideias, ainda terei na cabeça o nome de várias lojinhas e a sequência delas nas calçadas, o chafariz da praça, o picolé de groselha tinge-língua, as ruas de paralelepípedo, as caras conhecidas, a passarinhada da árvore do banco do Brasil que despejava suas titicas em mim no verão… paisagens que vou apalpando com a memória vez ou outra. A gente tinha um único cinema por lá, de frente à praça central. Foi lá que assisti ET (deviam prender o Spielberg por ter feito o ET mais feio ever e aterrorizado criancinhas), Um dia a casa cai, o Império do Sol e mais um punhado de filmes legais. A gente não tinha os problemas de agora para escolher que filme assistir, não! Se não me engano era sempre um filme só, então era aquele ou aquele mesmo. Isso faz pensar que quanto mais a gente retrocede no tempo, vê que era a própria vida que se encarregava de fazer as escolhas pra gente. No stress! Hoje tem 683468 opções pra qualquer bobaginha que a gente faz. Aí sofremos com dileminhas e dilemões que se põem no caminho… Ah, e como eram gostosos os filmes dos anos 80! Eles faziam sentido para nós crianças, havia sempre alguma traquinagem, adolescentes matando aula, conflitos bobos no colégio, piadinhas sujas, muita aventura e situações irreais, pai que trocava de lugar com o filho, criança que ficava adulto, insurreição de nerds… delicinha! Hoje a gente tem que aturar o bom-mocismo dos filmes infanto-juvenis e dos desenhos (blergh!), o que, convenhamos, não tem ajudado a criar ladies nem gentlemen, tamanha a má educação das crianças que se vê por aí.

Em Lorena só tínhamos um prédio na cidade inteira e todos o chamavam ingenuamente de… predião ♥! Hoje em dia, tadinho, como os prédios se alastram feito praga, deve ser predinho… É possível que no fim da vida eu fique sujetivamente presa a Lorena, para o bem e para o mal. Se alguém topar comigo em meados deste século, topará, sobretudo, com uma lorenense, com essas mesmas lembranças gastas entalhadas na cabeça. Peguei-me pensando nisso esses dias. Olha só no que dá o carnaval para alguém que não samba nem batuca!

Apesar de crescer em cidade miúda, viajava muito a São Paulo e achava tudo um horror (mas adorava os metrôs, as escadas rolantes e a cidade das crianças), dizia e repetia que nunca moraria lá! Imagina, toda aquela poluição, as ruas sujas, a quantidade de carros, as distâncias, eu hein! Mas sempre adorava voltar, amava e odiava aquela bagunça toda. Se eu soubesse que o trânsito e a poluição escalariam ao ponto de como estão hoje, acharia tudo aquilo uma graça, uma fichinha, seria uma menina de opinião mais condescendente… Naquela época, meu pai conseguia estacionar o carro na Galvão Bueno facinho, a qualquer hora do dia. Tá certo que muitas vezes a situação exigia muito talento pra baliza, mas hoje a rua não acolhe bem nem uma pulga. Delícia era entrar na velha livraria Ono e escolher mangás e livros para colorir, depois ir na peixaria azulejada no fundo da loja comprar obentô. Era tudo mais pacato quando o sushi ainda não era uma celebridade e as pessoas tinham nojinho de peixe cru…

Aí na adolescência, morando mais pertinho de São Paulo, continuei a frequentar muito a cidade grande. Ia com a atual comadre, garimpar CDs, bater perna, ficar perdida, dar risada. Depois passei a seguir as mostras de cinema, as exposições, oficinas disso e daquilo. Era sempre um pé lá, outro cá. Poderia me passar por uma culturete espertinha nessa época se não me vestisse e portasse como mais uma japonesa aguada na multidão e se não fosse tão… flagrantemente interiorana. O que achava mais intrigante era como alguns paulistanos tinham o interior como outro planeta, feito aquele estrangeiro que imagina o brasileiro indo trabalhar de canoa atravessando igarapés amazônicos. Alguns não entendem nada do interior, não sabem onde ficam nem as cidades medianas, nenhuma delas e, claro, estão convictos de que fora de São Paulo não há quase nada. É justo. Também não entendo nada de geografias e povos distantes e muitas vezes não me esforço, confesso. Engraçado como a gente já vai logo pondo um sombrero na cabeça do mexicano, boina e baguete no francês… por que não enfiariam uma banana na nossa?

Na infância eu não entendia muito bem que havia essa distinção entre capital e interior, achava todo mundo igual nesse quesito, afinal que diferença fazia na vida da pessoa esse negócio de nascer ou viver aqui ou lá? Quase nenhuma, a não ser que sejam as ilhas Salomão ou a Groenlândia… se bem que hoje nem o fim do mundo é tão fim do mundo assim. Aí a gente cresce e vai vendo que pros adultos é todo mundo tão diferente, só porque o sujeito é meio esquisitão, vem do bairro tal, tem o cabelo assim ou assado, tem um dedo a mais, gosta de homem, de mulher, gosta dos dois, qualquer bobagem é motivo pra criatura ser uma afronta pública. Não estou dizendo, com isso, que eu seja limpinha e não tenha meus bocados de conceitos feitos e instantâneos. Todo mundo parece que se ocupa muito em fingir que não tem preconceito nem inveja, essas coisas horrorosas que ninguém deveria ter, grita que não tem, solta um “deus me livre!”, mas tem. Ô! Se alguém admitir, vai pra fogueira do politicamente correto! Daí que todo mundo corre varrer seus achaques pra debaixo de um tapetinho sem-vergonha. Pura perda de tempo! Todo esse trabalho de negar as próprias falhas parece que só dá combustível pros nossos venenos queimarem mais dentro da gente.

Vocês viram a entrevista (sensacional) com o Laerte no Roda Viva desta semana (acho que foi reprise)? Seria apropriado, mas por enquanto, não vou falar dele, do Laerte ou da Laerte (não sei como andam chamando ele ou ela)… Repararam na psicanalista? Conhecia ela pelo nome e pelo que ela escreve por aí, mas não pelo rosto. Decidi aqui quietinha que, caso houvesse oportunidade, não trataria meu lado negro com ela, não. Algo ali não se adequa, a roupa, o porte, o jeitão de falar… Achei desleixada naquela hora (ó que maldade a minha!). Claro que minha esnobada imaginária não vai fazer diferença na vida de ninguém e tá certo que o cenário do programa, tão asséptico, não a favoreceu nadinha. E aquela luz? Tudo uma arapuca para as rugas, manchas e marcas de expressão! Desconto pra ela! Se eu fosse importante e fosse convidada pelo programa, só iria se me garantissem por escrito e lavrado boas doses de photoshop. Bom, mas também desconfio das psicanalistas peruonas demais, porque no fundo espero algum comedimento da pessoa que vai tratar meus desvarios. O meio termo sempre me parece mais salutar, mais apto. Sei lá por que a gente costuma acreditar nisso, mas é. De certo, uma pessoa que esquente um assento do Roda viva deve estar cheia de credenciais e qualidades mil e eu aqui, cheia de conjecturas furadas pra cima dela. A gente é assim, prontíssimo para pré-julgar o outro, enquanto os nossos defeitos ficam aqui, no choco, abafadinhos. Minha civilidade e fineza não permitem que meus conceitos precipitados se tornem uma grande coisa, algo a que devo me referir sempre ou que todos devem saber. Deixo tudo muito quietinho. Coisa minha (agora também é de quem me lê aqui). Céus!

Remediemo-nos.

 

dias a fio…

Ando aqui silenciosa, escrevendo pouco, lendo pouco, fazendo tudo muito rápido e com aquela sensação de não estar em lugar nenhum e não ter feito nada que preste, típico de quem está apenas correndo muito e refletindo pouco…

Enquanto isso assisto às pequenas vitórias diárias do meu filho conquistando independência, esboçando alguma coragem para o primeiro passo, observando com atenção a articulação das nossas bocas quando falamos. O menino é tempestuoso e petulante, bem se vê. Em mim, notei uns bons fios de cabelo branco insidiosos tomando conta da têmpora esquerda. O marido cobiçou esse primeiro indício de uma mecha branca para enfeitar a cabeça. Talvez ele imagine que fique com cara de sabido como o Sr. Fantástico dos gibis, que foi lindamente atingido por raios cósmicos, mas desconfio que meus cabelos brancos não serão vistos exatamente como um adorno e muito menos irão despertar a inveja do mulherio, mesmo porque, a maioria está mais ocupada em parecer gostosa e não sabida, rs… Gostaria de dar mais importância a esses pequenos eventos, talvez simular algum ataque histérico pelo avanço da idade, fazer uma graça, mas a verdade é que ligo pouco pra essas coisas. Talvez devesse cogitar pintar os cabelos, afinal seria bem fácil tendo mãe cabeleireira, tudo a um palmo, mas me incomoda a ideia de por tinta no cabelo, porque os meus são pretos, grossos, difíceis, inclinado a ser seco e ter frizz (não sei bem o que é, mas acho que tenho) e ter pontas duplas e todo aquele rol de desgraças capilares do qual o discurso científico das propagandas de xampu fazem alarde. Pensando bem, vai ver não sou tão blasé assim, já que estou aqui anunciando a brancura dos meus fios.

O clima temperamental dos últimos dias me brindou também com um resfriado, algo que não experimentava há muito tempo, nada muito trágico, só uma coriza chata e a garganta irritadiça, ótimo pretexto para o marido me fazer alguma indulgência, um chá com mel e limão tarde da noite e algum afago. Também tem o torpor da gripe, esse peso na cabeça que deixa tudo meio vago e enevoado…

Até a cozinha, terreno que andava tão alegre e produtivo pra mim nos últimos meses, tem sido negligenciado. Até a feira semanal, as frutas e folhas viçosas dentro da cesta, coisas que me revigoravam a alma, deixei de fazer nas últimas semanas. Minha pequena grande meta é tomar minha minha vida de volta, tão logo cesse este resfriado.

No mais, estou sensibilíssima a tudo. Ser mãe novata tem dessas coisas. O noticiário anda trash demais, ex-maridos continuam matando as mães de seus filhos, diarista que toma empréstimo para comprar peitos e morre na cirurgia, a sede de culpados no caso da boate incendiada, uma grávida de 9 anos… é ruim ver a vida por esse viés dos jornais, que parece um circo de tragédias. Acho que corta o apetite, no mínimo. Às vezes a vontade é de me internar em mim mesma ou no aconchego dos que me têm afeto e ignorar o macromundo, por mais que alguém me acuse de alienada, covarde ou qualquer coisa assim. Tem uma legião de pessoas com dedos em riste na internet prontos para atacar a opinião do outro, de pegar no pé por alguma frase mal posta, coisas que têm me cansado muito também. Mas meus primeiros fios brancos devem me fazer alguma concessão.

Também estamos naquele período crítico da programação televisiva. As vinhetas de carnaval repetitivas, as caras e bocas, mulheres peladas, uma reportagem sobre a badalação na praia de Maresias, onde, aprendi, toma-se champanhe Chandon e não cerveja, meninos musculosos rebolando com óculos de armação branca, meninas de coxas grossas, tudo e todos sempre disponíveis pra tudo…

desculpem a rabugice. Vou ali ler alguma coisa e fazer uma sopa, que o friozinho está bem convidativo!