Muito além do peso

Feb 19

Este documentário estava no primeiro lugar da fila dos filmes a assistir, mas mesmo assim demorou pra arranjar tempo pra ele.

Ele está disponível aqui e pode ser baixado gratuitamente em HD. Se vocês tiverem filhos, netos, sobrinhos, forem da área de educação, alimentação, é bem bacana assistir e indicar.

Acho que muitos já viram e ele não deve ser novidade para a maioria que passa por aqui, mas acho importante não perder o bonde e não deixar o assunto (alimentação e obesidade infantil) em branco. O filme mostra cenas e situações emblemáticas que sintetizam bem como andam comendo as nossas crianças. Logo no início, as imagens nos situam num povoado da Amazônia, casas de palafita com corredores estreitos ligando umas as outras, aí entra em cena o inusitado: um homem puxando um carrinho abarrotado de garrafas de refrigerante, deixando bem claro que não há fronteiras para os alimentos industrializados. Assim como o surreal barco da Nestlé que parece alcançar os povoados amazônicos mais remotos despejando seus produtos em áreas que, imagino, sejam bem servidas por alimentos nativos, que a própria natureza cuidou de fornecer. Como disse a consumidora da embarcação, cheia de biscoitos, chocolates e achocolatados no colo, “hoje estamos levando só o básico”. Há também o depoimento da moça que guardou um bolinho industrializado por 1 ano e, pasmem, ele não estragou! Nem uma pintinha de bolor, nada! Até os fungos o recusaram (se vocês assistiram o documentário Super size me, vão se recordar da experiência com a batata frita eterna do McDonalds), mas as crianças comem os tais bolinhos lambendo os beiços. Estamos comendo comida morta! O refrigerante, claro, foi insistentemente abordado. A diretora do filme, Estela Renner, repete várias vezes a mesma ação de colocar na frente das pessoas a quantidade de açúcar, gordura, sal que os alimentos industrializados contêm. É bem ilustrativo. Também tem o relato de uma médica que cita o caso de um menino que levava banana para o lanche da escola e ia comer a fruta no banheiro para não ser humilhado pelos colegas, que, claro, levavam alimentos industrializados, de marca, de personagens, sei lá… Dá uma tristeza muito funda assistir ao filme. Todas aquelas crianças com colesteral alto, diabetes, dores no joelho, cansaço, prostração, todas presas em seus corpos doentes e velhos… o que estamos fazendo?

As famílias cozinham menos, porque trabalham mais e têm menos tempo. Isso é fato. Aí eu pergunto: dá pra retornar ao tipo de dinâmica alimentar das famílias de antigamente, ou seja, cozinhar as refeições em casa, comprar mais alimentos frescos, arrumar tempo pra bancar todo o ciclo de atividades que a alimentação doméstica demanda (comprar alimentos frescos, limpá-los, armazená-los e prepará-los)? Acho que até dá, mas para muitos isso implicaria em fazer escolhas e renúncias. É tão mais fácil chegar tarde da noite em casa, abrir um pacote de hamburguer, um pacote de lasanha congelada, pedir uma pizza… Tudo tão rápido e prático que não dá nem pra pensar em perder horas na cozinha como faziam nossas avós. Aí vamos vendo que essa questão é bem abrangente e diz respeito não só à alimentação, mas a todo o estilo de vida que a maioria de nós tem adotado: muito trabalho, pouco tempo, alimentação ruim e consumismo. Se perguntarem às pessoas em geral o motivo pelo qual elas não cozinham em casa, acredito que a falta de tempo será a grande culpada. As pessoas não têm tempo, porque trabalham demais, trabalham demais porque querem ganhar mais dinheiro, precisam ganhar mais dinheiro para sustentar suas necessidades. Até aí tudo bem, tudo normal e muito justo, o problema é que estamos nos afogando num mar de “necessidades” supérfluas. Não precisamos delas, apesar de as propagandas e a manutenção de um certo status social nos façam crer que elas sejam necessárias. Logo me recordei de um depoimento um tanto comovente e muito lúcido de uma mãe fazendo toda a mea culpa do mundo sobre sua própria negligência em relação aos filhos devido ao trabalho que ela mantém para sustentar um padrão de vida que ela mesma constata que não traz felicidade, nem mesmo satisfação para ela e muito menos para os filhos, que carecem da presença materna no dia-a-dia. Penso que quem pode fazer um downgrade (trabalhar menos e ganhar menos), seja para se alimentar melhor ou para passar mais tempo com os filhos, desfruta de um belo luxo! Sim, fazer downgrade é um luxo e tanto! Há mães que criam filhos sozinhas e cumprem jornadas de trabalho intermináveis para sustentar o básico do básico e mal acompanham o crescimento dos filhos. Para essa mãe, as saídas são bem mais difíceis, não há como cortar nada do orçamento minguado, não dá para trabalhar menos. Mas me diga quem quer operar downgrades em seu padrão de vida, se tá todo mundo tão impelido a consumir, se o consumo define tanto quem a gente é hoje em dia? Poucas pessoas, mas felizmente tenho visto muitos pais parando de trabalhar que nem loucos (quando o orçamento da casa permite) que enxergam a situação com clareza e chamam a responsabilidade para si, abdicando de trocar de carro, de passar férias paradisíacas todos os anos e de se internar nos shoppings nos fins de semana, para cuidar da alimentação, da saúde e do bem-estar da família. Parece óbvio, mas não sei como chegamos ao ponto de não enxergar mais o óbvio. Quando foi que passamos a acreditar que temos que nos lascar de trabalhar para entupir nossos filhos com brinquedos, com marcas famosas e com comidas sabor pizza ou queijo cheddar? Como foi que nos tornamos presas tão débeis das grandes indústrias e de suas propagandas? Logo, logo todas essas coisas que compramos para os nossos filhos não serão mais satisfatórias e precisaremos substituí-las por coisas novas, incutindo nas crianças desde cedo a noção venenosa de obsolecência contínua, como se tudo tivesse que ser descartado o mais rápido possível para dar lugar a novas mercadorias. Eles serão assim ótimos consumidores, péssimos cidadãos! Bebês não precisam de uma montanha de brinquedos e coisas que eles nem entendem. Eles precisam do tempo dos pais, de leite materno (quando possível), de contato físico, coisas que não se compram no cartão de crédito. Crianças não precisam de brinquedos novos a cada ida às lojas, elas precisam cultivar carinho pelo que têm, precisam da nossa presença, do nosso bom senso, do nosso amor, tanto quanto da nossa repreensão e autoridade, pois elas ainda não sabem quem são.

Eu assisti ao filme por esse viés, porque alimentação é algo tão essencial, está ligada a tudo que a gente faz, ao modo como tocamos nossas vidas, como trabalhamos, como consumimos. Num certo momento do filme, o ex-publicitário Alex Bogusky, esclarece: “O poder do consumidor é enorme porque ele tem o dinheiro. É a única coisa que você tem que as empresas querem… Se você sabe quais são seus valores e você os determina. Você diz ‘Eu vou comprar o futuro que quero ver no mundo, comprando somente de empresas compatíveis com meus valores’. Certamente você vai apavorar as empresas”. Vocês já pararam para pensar no que estão comprando? De quem estão comprando? De como é feito aquilo que você compra? Como são as pessoas envolvidas naquele processo de compra? Consumo é sim um ato político e se você decidir não comprar feito um zumbi teleguiado pelas propagandas, pelas revistas, pelas modinhas passageiras, é preciso começar a se fazer certas perguntas…

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sobre venenos e caipirices…

Feb 13

foto: Corbis

Sabe, venho de uma cidade bem pequena. Lorena é o que se pode chamar de fim de mundo. Tudo bem, fim de mundo é outra coisa, mas é ali pra lá da terra do Mazzaropi, dos jecas-tatu, depois da curva… (sou caipira de tudo, mas sei disfarçar, tá!).

Despedi-me de Lorena na mesma idade em que a gente costuma se retirar da infância (ou achar que saiu dela), aos 12, e voltei pra lá poucas vezes, talvez para não quebrar o encanto, para manter aquela coisa toda intacta, como se depositasse as boas memórias dentro de uma cápsula que levo no bolso aonde for. Ironicamente, caso o Alzheimer me pegue lá na frente, são as lembranças lorenenses as mais nítidas e acessíveis, pois dizem que os arquivos velhos são os mais vivos. Veremos. De certo, então, aos 90 (se eu durar esse tanto), tontinha das ideias, ainda terei na cabeça o nome de várias lojinhas e a sequência delas nas calçadas, o chafariz da praça, o picolé de groselha tinge-língua, as ruas de paralelepípedo, as caras conhecidas, a passarinhada da árvore do banco do Brasil que despejava suas titicas em mim no verão… paisagens que vou apalpando com a memória vez ou outra. A gente tinha um único cinema por lá, de frente à praça central. Foi lá que assisti ET (deviam prender o Spielberg por ter feito o ET mais feio ever e aterrorizado criancinhas), Um dia a casa cai, o Império do Sol e mais um punhado de filmes legais. A gente não tinha os problemas de agora para escolher que filme assistir, não! Se não me engano era sempre um filme só, então era aquele ou aquele mesmo. Isso faz pensar que quanto mais a gente retrocede no tempo, vê que era a própria vida que se encarregava de fazer as escolhas pra gente. No stress! Hoje tem 683468 opções pra qualquer bobaginha que a gente faz. Aí sofremos com dileminhas e dilemões que se põem no caminho… Ah, e como eram gostosos os filmes dos anos 80! Eles faziam sentido para nós crianças, havia sempre alguma traquinagem, adolescentes matando aula, conflitos bobos no colégio, piadinhas sujas, muita aventura e situações irreais, pai que trocava de lugar com o filho, criança que ficava adulto, insurreição de nerds… delicinha! Hoje a gente tem que aturar o bom-mocismo dos filmes infanto-juvenis e dos desenhos (blergh!), o que, convenhamos, não tem ajudado a criar ladies nem gentlemen, tamanha a má educação das crianças que se vê por aí.

Em Lorena só tínhamos um prédio na cidade inteira e todos o chamavam ingenuamente de… predião ♥! Hoje em dia, tadinho, como os prédios se alastram feito praga, deve ser predinho… É possível que no fim da vida eu fique sujetivamente presa a Lorena, para o bem e para o mal. Se alguém topar comigo em meados deste século, topará, sobretudo, com uma lorenense, com essas mesmas lembranças gastas entalhadas na cabeça. Peguei-me pensando nisso esses dias. Olha só no que dá o carnaval para alguém que não samba nem batuca!

Apesar de crescer em cidade miúda, viajava muito a São Paulo e achava tudo um horror (mas adorava os metrôs, as escadas rolantes e a cidade das crianças), dizia e repetia que nunca moraria lá! Imagina, toda aquela poluição, as ruas sujas, a quantidade de carros, as distâncias, eu hein! Mas sempre adorava voltar, amava e odiava aquela bagunça toda. Se eu soubesse que o trânsito e a poluição escalariam ao ponto de como estão hoje, acharia tudo aquilo uma graça, uma fichinha, seria uma menina de opinião mais condescendente… Naquela época, meu pai conseguia estacionar o carro na Galvão Bueno facinho, a qualquer hora do dia. Tá certo que muitas vezes a situação exigia muito talento pra baliza, mas hoje a rua não acolhe bem nem uma pulga. Delícia era entrar na velha livraria Ono e escolher mangás e livros para colorir, depois ir na peixaria azulejada no fundo da loja comprar obentô. Era tudo mais pacato quando o sushi ainda não era uma celebridade e as pessoas tinham nojinho de peixe cru…

Aí na adolescência, morando mais pertinho de São Paulo, continuei a frequentar muito a cidade grande. Ia com a atual comadre, garimpar CDs, bater perna, ficar perdida, dar risada. Depois passei a seguir as mostras de cinema, as exposições, oficinas disso e daquilo. Era sempre um pé lá, outro cá. Poderia me passar por uma culturete espertinha nessa época se não me vestisse e portasse como mais uma japonesa aguada na multidão e se não fosse tão… flagrantemente interiorana. O que achava mais intrigante era como alguns paulistanos tinham o interior como outro planeta, feito aquele estrangeiro que imagina o brasileiro indo trabalhar de canoa atravessando igarapés amazônicos. Alguns não entendem nada do interior, não sabem onde ficam nem as cidades medianas, nenhuma delas e, claro, estão convictos de que fora de São Paulo não há quase nada. É justo. Também não entendo nada de geografias e povos distantes e muitas vezes não me esforço, confesso. Engraçado como a gente já vai logo pondo um sombrero na cabeça do mexicano, boina e baguete no francês… por que não enfiariam uma banana na nossa?

Na infância eu não entendia muito bem que havia essa distinção entre capital e interior, achava todo mundo igual nesse quesito, afinal que diferença fazia na vida da pessoa esse negócio de nascer ou viver aqui ou lá? Quase nenhuma, a não ser que sejam as ilhas Salomão ou a Groenlândia… se bem que hoje nem o fim do mundo é tão fim do mundo assim. Aí a gente cresce e vai vendo que pros adultos é todo mundo tão diferente, só porque o sujeito é meio esquisitão, vem do bairro tal, tem o cabelo assim ou assado, tem um dedo a mais, gosta de homem, de mulher, gosta dos dois, qualquer bobagem é motivo pra criatura ser uma afronta pública. Não estou dizendo, com isso, que eu seja limpinha e não tenha meus bocados de conceitos feitos e instantâneos. Todo mundo parece que se ocupa muito em fingir que não tem preconceito nem inveja, essas coisas horrorosas que ninguém deveria ter, grita que não tem, solta um “deus me livre!”, mas tem. Ô! Se alguém admitir, vai pra fogueira do politicamente correto! Daí que todo mundo corre varrer seus achaques pra debaixo de um tapetinho sem-vergonha. Pura perda de tempo! Todo esse trabalho de negar as próprias falhas parece que só dá combustível pros nossos venenos queimarem mais dentro da gente.

Vocês viram a entrevista (sensacional) com o Laerte no Roda Viva desta semana (acho que foi reprise)? Seria apropriado, mas por enquanto, não vou falar dele, do Laerte ou da Laerte (não sei como andam chamando ele ou ela)… Repararam na psicanalista? Conhecia ela pelo nome e pelo que ela escreve por aí, mas não pelo rosto. Decidi aqui quietinha que, caso houvesse oportunidade, não trataria meu lado negro com ela, não. Algo ali não se adequa, a roupa, o porte, o jeitão de falar… Achei desleixada naquela hora (ó que maldade a minha!). Claro que minha esnobada imaginária não vai fazer diferença na vida de ninguém e tá certo que o cenário do programa, tão asséptico, não a favoreceu nadinha. E aquela luz? Tudo uma arapuca para as rugas, manchas e marcas de expressão! Desconto pra ela! Se eu fosse importante e fosse convidada pelo programa, só iria se me garantissem por escrito e lavrado boas doses de photoshop. Bom, mas também desconfio das psicanalistas peruonas demais, porque no fundo espero algum comedimento da pessoa que vai tratar meus desvarios. O meio termo sempre me parece mais salutar, mais apto. Sei lá por que a gente costuma acreditar nisso, mas é. De certo, uma pessoa que esquente um assento do Roda viva deve estar cheia de credenciais e qualidades mil e eu aqui, cheia de conjecturas furadas pra cima dela. A gente é assim, prontíssimo para pré-julgar o outro, enquanto os nossos defeitos ficam aqui, no choco, abafadinhos. Minha civilidade e fineza não permitem que meus conceitos precipitados se tornem uma grande coisa, algo a que devo me referir sempre ou que todos devem saber. Deixo tudo muito quietinho. Coisa minha (agora também é de quem me lê aqui). Céus!

Remediemo-nos.

 

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dias a fio…

Feb 07

Ando aqui silenciosa, escrevendo pouco, lendo pouco, fazendo tudo muito rápido e com aquela sensação de não estar em lugar nenhum e não ter feito nada que preste, típico de quem está apenas correndo muito e refletindo pouco…

Enquanto isso assisto às pequenas vitórias diárias do meu filho conquistando independência, esboçando alguma coragem para o primeiro passo, observando com atenção a articulação das nossas bocas quando falamos. O menino é tempestuoso e petulante, bem se vê. Em mim, notei uns bons fios de cabelo branco insidiosos tomando conta da têmpora esquerda. O marido cobiçou esse primeiro indício de uma mecha branca para enfeitar a cabeça. Talvez ele imagine que fique com cara de sabido como o Sr. Fantástico dos gibis, que foi lindamente atingido por raios cósmicos, mas desconfio que meus cabelos brancos não serão vistos exatamente como um adorno e muito menos irão despertar a inveja do mulherio, mesmo porque, a maioria está mais ocupada em parecer gostosa e não sabida, rs… Gostaria de dar mais importância a esses pequenos eventos, talvez simular algum ataque histérico pelo avanço da idade, fazer uma graça, mas a verdade é que ligo pouco pra essas coisas. Talvez devesse cogitar pintar os cabelos, afinal seria bem fácil tendo mãe cabeleireira, tudo a um palmo, mas me incomoda a ideia de por tinta no cabelo, porque os meus são pretos, grossos, difíceis, inclinado a ser seco e ter frizz (não sei bem o que é, mas acho que tenho) e ter pontas duplas e todo aquele rol de desgraças capilares do qual o discurso científico das propagandas de xampu fazem alarde. Pensando bem, vai ver não sou tão blasé assim, já que estou aqui anunciando a brancura dos meus fios.

O clima temperamental dos últimos dias me brindou também com um resfriado, algo que não experimentava há muito tempo, nada muito trágico, só uma coriza chata e a garganta irritadiça, ótimo pretexto para o marido me fazer alguma indulgência, um chá com mel e limão tarde da noite e algum afago. Também tem o torpor da gripe, esse peso na cabeça que deixa tudo meio vago e enevoado…

Até a cozinha, terreno que andava tão alegre e produtivo pra mim nos últimos meses, tem sido negligenciado. Até a feira semanal, as frutas e folhas viçosas dentro da cesta, coisas que me revigoravam a alma, deixei de fazer nas últimas semanas. Minha pequena grande meta é tomar minha minha vida de volta, tão logo cesse este resfriado.

No mais, estou sensibilíssima a tudo. Ser mãe novata tem dessas coisas. O noticiário anda trash demais, ex-maridos continuam matando as mães de seus filhos, diarista que toma empréstimo para comprar peitos e morre na cirurgia, a sede de culpados no caso da boate incendiada, uma grávida de 9 anos… é ruim ver a vida por esse viés dos jornais, que parece um circo de tragédias. Acho que corta o apetite, no mínimo. Às vezes a vontade é de me internar em mim mesma ou no aconchego dos que me têm afeto e ignorar o macromundo, por mais que alguém me acuse de alienada, covarde ou qualquer coisa assim. Tem uma legião de pessoas com dedos em riste na internet prontos para atacar a opinião do outro, de pegar no pé por alguma frase mal posta, coisas que têm me cansado muito também. Mas meus primeiros fios brancos devem me fazer alguma concessão.

Também estamos naquele período crítico da programação televisiva. As vinhetas de carnaval repetitivas, as caras e bocas, mulheres peladas, uma reportagem sobre a badalação na praia de Maresias, onde, aprendi, toma-se champanhe Chandon e não cerveja, meninos musculosos rebolando com óculos de armação branca, meninas de coxas grossas, tudo e todos sempre disponíveis pra tudo…

desculpem a rabugice. Vou ali ler alguma coisa e fazer uma sopa, que o friozinho está bem convidativo!

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escolhendo uma cadeirinha para carro…

Jan 14

E o Eric vai fazer 1 ano este mês, hein! É inacreditável como aquele amendoinzinho de outro dia está quase andando e falando hoje (omg! o que acontece com o tempo!?). Ele já está deixando o bebê conforto e aderindo à cadeirinha, voltada para a frente do carro. Aí outro dia comentei no facebook como é difícil comprar isso, já que estava indecisa no meio de tantas marcas, modelos, cores, tamanhos, faixas de peso, preços… Recebi várias dicas bacanas por lá, mas ó, escolher uma cadeirinha para o seu filho usar por tanto tempo (de 1 a 4 anos) não é coisa fácil, não! Pelo menos não foi pra nós, porque, vejam: há que se considerar uma lista de itens, além, claro, do famigerado selinho do Inmetro. Tem que pensar na faixa de peso e idade da criança e nas opções de peso oferecidas no mercado (há cadeiras de 0 a 36 Kg, 0 a 18Kg, 9 a 25Kg, 15 a 36Kg etc), ver se a cadeirinha é segura, confortável, se ela reclina o suficiente para a criança dormir com conforto, se o cinto de segurança do carro passa na cadeirinha (por incrível que pareça já vi comentários sobre cadeirinhas incompatíveis com cintos de alguns carros) e (ufa!), claro, o preço, né! Vi cadeirinhas de R$ 150 a R$ 1200, ou seja, uma variação absurda! Algum valor mediano estaria de bom tamanho para nós.

Fiquei bastante atenta à reclinação das cadeiras, pois pesquisando na internet, vi que isso era uma reclamação recorrente dos pais. Parece que em alguns modelos, a criança fica com a cabeça pendurada quando dorme, aí seria preciso improvisar com aqueles travesseiros de pescoço. O problema é que nas lojas físicas que visitei não havia tanta variedade de modelos e os preços não estavam muito atrativos. Resolvemos comprar pela internet mesmo, como quase tudo que compramos aqui em casa. Escolhemos esse modelo da Fisher Price, de 0 a 18Kg:

Sei que a marca não diz muita coisa, pois vi cadeirinhas idênticas com outras marcas. Imagino que tudo seja feito na China e a marca é mera questão de etiqueta, como acontece com muitos eletrônicos e eletrodomésticos, não se enganem! O que nos fez optar pelo modelo foram as 5 posições de reclínio (na verdade, pode-se considerar como 2, sentado e deitado, pois as posições são tão próximas que nem faz tanta diferença assim) e o aspecto firme do acolchoamento (não gosto muito de acolchoados moles). Também gostamos das laterais altas, que, acredito, podem dar alguma proteção extra no caso de colisões laterais.

Aqui, o Eric dormindo, bem acomodado na cadeirinha, a cabeça não fica pendendo de lado (queria tanto ver uma foto dessas quando estava pesquisando…):

 

O preço estava bem razoável, longe de ser uma das mais caras, ou seja, ficamos satisfeitos com o custo benefício.

Pontos negativos que observamos:

- não achamos a cadeira muito boa para ser usada voltada para trás (indicado para bebês até 1 ano), a impressão que deu é que ela fica instável e pode não ser segura em caso de acidentes;

- a instalação é um pouco complicada e chata (não sei se com outras marcas/modelos seja assim também), mas como provavelmente você fará a instalação poucas vezes, talvez isso não seja um problema;

- o cinto da cadeirinha é forrado com um material que parece uma borracha e ela esquenta quando o carro fica sob o sol, aí é preciso cuidado para não encostar na pele da criança (já estou pensando em cobrir com tecido);

- o cinto da cadeirinha não é lá muito fácil de se pôr e tirar. Isso é meio chato no dia-a-dia, mas também há a vantagem de a criança mais crescidinha não poder se soltar com facilidade.

É isso! Espero que minha experiência com a cadeirinha do Eric sirva, de algum modo, para alguém que esteja passando pelo mesmo dilema!

 

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a famigerada falta de tempo

Oct 26

Meu mundo virtual vem sofrendo com a montanha de tarefas reais a cumprir. A primeira atividade urgente e inadiável é colar no filho, que agora se arrasta impetuosamente pela casa toda, desafiando os perigos das quinas dos móveis e das tomadas desencapadas (preciso urgente de apetrechos de segurança, deste sábado não passa!), e adora arrancar tufos de pelo do Pupu, que tem até medo do Eric, coitado… Todos dizem em coro que tudo piora quando ele começar a andar, omg! Segundo: a habitual correria do último trimestre, quando as encomendas do estúdio quase nos engolem e os dias parecem ter 12h. Você dá uma bobeada e pimba: já é Natal, tudo está iluminado e piscante! Os Natais estão tão próximos um do outro que eu me sinto naquele filme Feitiço do tempo (ouço até a Cher na minha cabeça: “i got you babe, i got you babe”). Como proceder com o frenesi maluco dessa época do ano? Existe fobia de natal? Deve ter…

Terceiro: o estúdio estará de mudança na próxima semana. Mu-dan-ça! (Nessa hora um friozinho percorre o corpo). Não sei se rio ou choro. Mudar em pleno novembro é algo tão sem noção, mas tão sem noção… que apertamos o botão interno do phoda-se e vambora! Foi tão tentador que não tivemos como desprezar a oportunidade. Achamos um lugar pertinho de casa (lagriminha nos olhos)! Vocês não sabem o quanto isso tem valor pra gente! Poder ir a pé trabalhar, pessoas! Quanto vale isso? Se eu pudesse elencar metas pra mim e pra minha família, uma delas seria montar uma vida em que pudéssemos fazer tudo a pé! Então, o sumiço tá explicado! Provavelmente ele durará mais alguns dias. Por enquanto, preciso arrumar alguém pra mudar o ar condicionado e mais 2 mãos hábeis para dar conta das encomendas do fim de ano no estúdio… Mando notícias do front!

*aproveito para agradecer o carinho manifestado no último post, coisa que também não tem preço!
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Meu avô é um peixe

Oct 17

Meus avós, mãe e tios deixando o Japão.
 

Ele sempre foi pescador, não por profissão, mas por gosto. Saboreava aquele ritual, a espera, a iminência de um peixe grande e brilhante ser atraído por sua isca, a euforia da fisgada, a pequena luta para tirar o bicho da água, o ritmo que se estabelecia entre o girar do molinete e o puxar da vara… O tronco é forte, as pernas firmes, os pés chatos e os dedos robustos, características que, de alguma forma, fazem crer que nasceu mesmo para pescar. Adora contar vantagens, aumentar a dimensão dos seus feitos e as passagens gloriosas de sua vida: pescador nato! O costume de fantasiar eventos e acontecimentos, de desprezar a fidelidade aos fatos, por vezes irritava a família. É difícil separar devaneio e realidade na vida deste homem. Acessar fatos antigos, do modo que eles realmente aconteceram, torna-se, muitas vezes, tarefa intrincada e frustrada. No entanto, seus olhos refratários, que tanto distorciam, também embelezavam.

Na velhice, foi morar perto do mar numa casinha de madeira, onde tratou de instalar uma horta e colecionar orquídeas. Lá acolhia os netos nas férias e feriados. Costumava fazer varinhas de pesca de bambu para eles, todas curtinhas com anzóis pequenos e bóias bicolores na linha que era para as crianças verem os peixes fisgando a isca. Saía, então, com 4 netinhos enfileirados atrás dele, feito patinhos, cada um ombreando sua varinha, pisando nas pegadas largas que ele deixava na areia. Cinco personagens peculiares naquela praia de gente estilosa da capital, cheia de surfistas e suas namoradas platinadas estiradas na areia. O destino era um pequeno rio que desembocava no mar e ficava na extremidade da praia. Era a trupe do meu avô! Pescávamos carapicus aos montes, que passavam em cardume nas águas frias que desciam da serra. Os eventuais vizinhos de pescaria não obtinham o mesmo sucesso dos netinhos do meu avô, apenas assistiam a pescaria farta que vovô orquestrava. Mal sabia a concorrência que o anzol e a isca tinham que ser pequeninos para que o peixe pudesse abocanhar de uma só vez e não mordiscar pelas beiradas. Vovô também se utilizava do truque de jogar areia na água, feito chapisco, para atrair o cardume, algo que parecia uma pequena mágica aos olhos de uma criança. Às vezes vinham perguntar-lhe o segredo e, mesmo com seu português parco, ele, falastrão, dividia dicas e histórias. Em dias de pesca gorda, contávamos mais de 100 peixinhos! Voltávamos pra casa e limpávamos aquela caixa cheia de peixes. Minha função naquela pequena linha de produção doméstica que se instalava era retirar as escamas com uma faquinha. Meu primo eviscerava e minha vó preparava os peixes para comermos no almoço. Eu não sabia, claro, mas ali aprendia, sem tagarelices e lições de moral vazias, a valorizar naturalmente o trabalho e aquilo que comia, a ter apreço pelo ciclo que os alimentos cumprem até chegar à mesa.

Vovô é mesmo uma criatura das águas. Ingressou na marinha japonesa aos 20 anos e foi para a II Guerra a bordo do último porta-aviões japonês a ir a pique, designado para uma missão de sacrifício no Pacífico, naquela que seria a maior batalha naval da história contemporânea, cenário da atuação dos primeiros aviões kamikazes. Foi um dos poucos a poder contar essa história, passando horas aflitas nas águas filipinas, nadando e tentando sobreviver amarrado a um pedaço de madeira naquele mar salpicado pelas bombas dos aviões americanos, que insistiam em não lhe atingir. Os causos de guerra se entremeavam a uma história romântica que meu avô, claro, adorava enaltecer. Dizia ele que deixara uma namorada no Japão (que não era minha avó) e que ela lhe remeteu cartas durante o período em que esteve em batalha, dizendo que o esperava. Finda a guerra, teve que frustrar as expectativas da moça por um motivo que a ele fazia todo sentido: ela era fina, tinha estudos; ele não. Ele, em verdade, voltava da batalha para um Japão arrasado, sem ter onde cair morto. As paisagens internas e externas se misturavam. Voltou para sua cidade num trem tão abarrotado de gente, bagagens e desesperança que, conta, teve sorte ao conseguir um lugarzinho perto de uma janelinha aberta, onde conseguia respirar alguma coisa que não fosse o fedor daquele vagão e, imagino, as incertezas dolorosas de toda aquela gente. Talvez num coração preenchido por tantas mudanças não coubesse mesmo um amor que precedesse tudo aquilo.

Na década seguinte, casado e com 3 filhos, lançou-se ao mar novamente, feito história que se renova. Desta vez zarparam para além do canal do Panamá, rumo ao Caribe, de mudança para a exótica República Dominicana, onde conseguira alguma terra para plantar, por meio de um acordo feito entre o Japão e a pequena ilha caribenha, governada à época pela ditadura corrupta e assassina de Rafael Trujillo. A terra prometida, no entanto, era tão árida e arenosa que o plantio ali era impraticável. A promessa de fartura foi logo ganhando contornos do que realmente era, uma propaganda enganosa, filhote bronco dos arranjos e tratados do pós-guerra. Vovô partiu então para uma nova mudança para terras mais férteis, encontradas na cidade de Jarabacoa. Ali mamãe e meus tios estudaram em escola católica, sem serem cristãos, nem dominarem minimamente o espanhol. Mamãe foi batizada com o melodioso nome de Maria Carolina, mesmo com dificuldades (até hoje) de pronunciar corretamente o “L” de seu nome postiço. Ela conta que lá viu negros pela primeira vez. Eram quase todos negros, uma paisagem humana de outro mundo. Mamãe admirava-se com a habilidade das mulheres carregando latas na cabeça, espantava-se com os pré-adolescentes andando nus, exibindo os primeiros pelos publianos, e com os furtos praticados de modo tão habitual, algo que nunca tinha visto antes. Muitos dominicanos também passaram a conhecer gente amarela ali naquele movimento imigratório confuso e torto. O Caribe, palavra de cartão postal, que traduz férias, sol e paraíso, foi, para mim, ganhando ares invernais à medida que ia conhecendo o caribe das minhas famílias (a parte paterna também veio de lá). Vovô foi tocado de lá com o assassinato de Trujillo e a decorrente convulsão que se instalou no país. Atearam fogo em sua casa. Os japoneses trazidos pelo ditador morto já não eram mais bem vindos. Os meus, minha gente, cumpririam seu périplo malogrado desembarcando aqui no Brasil nos não tão distantes anos 1960 para viver anos difíceis. As crianças tiveram que trabalhar na roça e a casa era de pau a pique, feito aquelas que a gente vê nos livros da escola quando aprendemos sobre o ciclo do Mal de Chagas.

Apesar das truculências que a vida lhe impôs repetidas vezes, meu avô é um sujeito carismático, de muitos gracejos e riso fácil, que exerce certo fascínio sobre as pessoas, que logo se enredam em suas conversas mirabolantes, nos inúmeros causos que tem armazenado. Também é um cara de muitas crendices. Ostenta sobre sua penteadeira, uma imagem de Nossa Senhora e um Buda juntinhos formando uma espécie de altarzinho com outros objetos “sagrados”. Quando aprendi o que era sincretismo religioso, recorria à imagem mental daquela penteadeira para não esquecer a palavra nova. Nos últimos anos, coletou na rua um pedaço de madeira, porque enxergou ali a imagem de Nossa Senhora e, claro, juntou aquele toco disforme a sua galeria religiosa. A casa dele sempre foi assim, um amontoado de coisas que faziam sentido pra ele, sem compromisso com tendências, estilos ou padrões de “boniteza”, coisas essas tão estrangeiras na vida daquele homem que ele certamente acharia graça de tudo isso. As casas onde vovô morou me pareciam museus de bizarrias. Na sala, ao lado da TV, havia, pousada num galho, uma coruja empalhada com olhos de bolinha de gude e marcas de um tiro de raspão na cabeça; na parede, pendia um desenho, feito por ele, de um tubarão viola que ele havia pescado, junto a anotações de peso e comprimento; no canto da sala, um tronco enorme que o mar trouxe num dia de ressaca repousava feito monolito (vovô alegava ver ali o formato de um peixe e achava aquilo simpático); na parede, exibia com garbo os pomposos diplomas do “Melhor abacaxi do estado de SP”, que conquistara nos anos 70, quando plantava a fruta, da variedade Hawai (acho que hoje trocaram o nome por Bauru), em Lorena. Já se dedicou a esculpir passarinhos de madeira, fez seu próprio mini-templo budista, construiu uma réplica em miniatura de sua casa para sua cadela de estimação, conservava com zelo as ferramentas e a bicicleta que vieram do Japão com ele de navio. Para ele, sujeito que passou por poucas e boas, por penúria e privações, tudo tem conserto e pode ser reaproveitado, até seus chinelos de borracha ganham alças novas quando as originais arrebentam, até um amontoado de pregos usados ele insiste em desentortar e guardar num pote de vidro para reutilizar um dia. Não se trata de nenhuma onda ecológica, de nenhum movimento para banir sacolas, gente assim conserva e guarda porque faz sentido, porque respeita (e não idolatra) os objetos. Gente assim dá valor às coisas, dá valor à vida e ao que se faz dela. É assim o universo do meu avô. Falar dele daria um dia inteiro de conversa. Ele parece não caber numa vida só. Ele é de onde eu vim. Ele me constitui e vive em mim.

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Enquanto escrevia este post meu avô estava no hospital e eu já sabia que não voltaria pra casa. Fiquei sem saber o que fazer com o tanto que me deixou… escrever alguma coisa seria o mínimo para me livrar de não-sei-o-quê que fica preso por dentro. Este blog já deixou de ser só um blog, é meu confessionário, meu depósito de tudo que me é querido, das coisas que me instigam, me tiram do sério, me fazem melhor ou pior… poderia falar só de amenidades, como o mundo aqui dentro da internet parece exigir, mas não sei se saberia fazê-lo a todo tempo. Por isso, isso aqui às vezes é meio caótico, tem dias ruins, dias ótimos, tem muito de mim, inclusive uma imagem projetada, sorridente e bacana de mim, mas nem sempre é assim. Não sei fazer de outro jeito.

Meu avô nos deixou na manhã de sábado dia 13/10.

A vida lhe foi complacente, sobreviveu a tanto, viu crescer filhos e netos sem enterrar ninguém. Despediu-se apenas de minha vó há menos de 3 anos, ausência que deixou nele um buraco sem fim. Construiu para ela um butsudan (altar doméstico) e deixava lá, ao lado de suas cinzas, uma fruta, um chá, sempre havia algo de comer ali. Sei que é um costume milenar japonês, mas era a coisa mais singela de se ver.

Meu vô tinha câncer avançado, descoberto há menos de 2 anos, mas para surpresa dos médicos não tinha dores e nem se sentia mal após as sessões de quimioterapia. Pelo contrário: voltava pra casa e comia bastante. Se não fosse ateia, juraria que testemunhava uma bênção divina ou buscaria explicações e associações místicas para justificar o bem estar dele. Morreu sereno sem idas e vindas do hospital, sem dores, sem perturbar a vida de quem restou. Aposto que ele queria assim e aposto que mudaria pouca coisa na vida que teve. Sua morte não me deixou tristeza, só alegria, só um compromisso maior com a vida.

Quando criança, imaginava mesmo que ele era algum tipo de peixe e quando morresse voltaria pro mar e eu o veria de longe dando saltinhos rumo ao horizonte. Nutriu nos netos o mesmo gosto pelas águas. Sei que em cada um de nós, da trupe do meu avô, ainda vivem aqueles pequenos pescadores que procuravam na areia os pés chatos para segui-los até o rio, até o mundinho dele, onde coisas extraordinárias aconteciam.

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