Muito além do peso
Feb 19
Este documentário estava no primeiro lugar da fila dos filmes a assistir, mas mesmo assim demorou pra arranjar tempo pra ele.
Ele está disponível aqui e pode ser baixado gratuitamente em HD. Se vocês tiverem filhos, netos, sobrinhos, forem da área de educação, alimentação, é bem bacana assistir e indicar.
Acho que muitos já viram e ele não deve ser novidade para a maioria que passa por aqui, mas acho importante não perder o bonde e não deixar o assunto (alimentação e obesidade infantil) em branco. O filme mostra cenas e situações emblemáticas que sintetizam bem como andam comendo as nossas crianças. Logo no início, as imagens nos situam num povoado da Amazônia, casas de palafita com corredores estreitos ligando umas as outras, aí entra em cena o inusitado: um homem puxando um carrinho abarrotado de garrafas de refrigerante, deixando bem claro que não há fronteiras para os alimentos industrializados. Assim como o surreal barco da Nestlé que parece alcançar os povoados amazônicos mais remotos despejando seus produtos em áreas que, imagino, sejam bem servidas por alimentos nativos, que a própria natureza cuidou de fornecer. Como disse a consumidora da embarcação, cheia de biscoitos, chocolates e achocolatados no colo, “hoje estamos levando só o básico”. Há também o depoimento da moça que guardou um bolinho industrializado por 1 ano e, pasmem, ele não estragou! Nem uma pintinha de bolor, nada! Até os fungos o recusaram (se vocês assistiram o documentário Super size me, vão se recordar da experiência com a batata frita eterna do McDonalds), mas as crianças comem os tais bolinhos lambendo os beiços. Estamos comendo comida morta! O refrigerante, claro, foi insistentemente abordado. A diretora do filme, Estela Renner, repete várias vezes a mesma ação de colocar na frente das pessoas a quantidade de açúcar, gordura, sal que os alimentos industrializados contêm. É bem ilustrativo. Também tem o relato de uma médica que cita o caso de um menino que levava banana para o lanche da escola e ia comer a fruta no banheiro para não ser humilhado pelos colegas, que, claro, levavam alimentos industrializados, de marca, de personagens, sei lá… Dá uma tristeza muito funda assistir ao filme. Todas aquelas crianças com colesteral alto, diabetes, dores no joelho, cansaço, prostração, todas presas em seus corpos doentes e velhos… o que estamos fazendo?
As famílias cozinham menos, porque trabalham mais e têm menos tempo. Isso é fato. Aí eu pergunto: dá pra retornar ao tipo de dinâmica alimentar das famílias de antigamente, ou seja, cozinhar as refeições em casa, comprar mais alimentos frescos, arrumar tempo pra bancar todo o ciclo de atividades que a alimentação doméstica demanda (comprar alimentos frescos, limpá-los, armazená-los e prepará-los)? Acho que até dá, mas para muitos isso implicaria em fazer escolhas e renúncias. É tão mais fácil chegar tarde da noite em casa, abrir um pacote de hamburguer, um pacote de lasanha congelada, pedir uma pizza… Tudo tão rápido e prático que não dá nem pra pensar em perder horas na cozinha como faziam nossas avós. Aí vamos vendo que essa questão é bem abrangente e diz respeito não só à alimentação, mas a todo o estilo de vida que a maioria de nós tem adotado: muito trabalho, pouco tempo, alimentação ruim e consumismo. Se perguntarem às pessoas em geral o motivo pelo qual elas não cozinham em casa, acredito que a falta de tempo será a grande culpada. As pessoas não têm tempo, porque trabalham demais, trabalham demais porque querem ganhar mais dinheiro, precisam ganhar mais dinheiro para sustentar suas necessidades. Até aí tudo bem, tudo normal e muito justo, o problema é que estamos nos afogando num mar de “necessidades” supérfluas. Não precisamos delas, apesar de as propagandas e a manutenção de um certo status social nos façam crer que elas sejam necessárias. Logo me recordei de um depoimento um tanto comovente e muito lúcido de uma mãe fazendo toda a mea culpa do mundo sobre sua própria negligência em relação aos filhos devido ao trabalho que ela mantém para sustentar um padrão de vida que ela mesma constata que não traz felicidade, nem mesmo satisfação para ela e muito menos para os filhos, que carecem da presença materna no dia-a-dia. Penso que quem pode fazer um downgrade (trabalhar menos e ganhar menos), seja para se alimentar melhor ou para passar mais tempo com os filhos, desfruta de um belo luxo! Sim, fazer downgrade é um luxo e tanto! Há mães que criam filhos sozinhas e cumprem jornadas de trabalho intermináveis para sustentar o básico do básico e mal acompanham o crescimento dos filhos. Para essa mãe, as saídas são bem mais difíceis, não há como cortar nada do orçamento minguado, não dá para trabalhar menos. Mas me diga quem quer operar downgrades em seu padrão de vida, se tá todo mundo tão impelido a consumir, se o consumo define tanto quem a gente é hoje em dia? Poucas pessoas, mas felizmente tenho visto muitos pais parando de trabalhar que nem loucos (quando o orçamento da casa permite) que enxergam a situação com clareza e chamam a responsabilidade para si, abdicando de trocar de carro, de passar férias paradisíacas todos os anos e de se internar nos shoppings nos fins de semana, para cuidar da alimentação, da saúde e do bem-estar da família. Parece óbvio, mas não sei como chegamos ao ponto de não enxergar mais o óbvio. Quando foi que passamos a acreditar que temos que nos lascar de trabalhar para entupir nossos filhos com brinquedos, com marcas famosas e com comidas sabor pizza ou queijo cheddar? Como foi que nos tornamos presas tão débeis das grandes indústrias e de suas propagandas? Logo, logo todas essas coisas que compramos para os nossos filhos não serão mais satisfatórias e precisaremos substituí-las por coisas novas, incutindo nas crianças desde cedo a noção venenosa de obsolecência contínua, como se tudo tivesse que ser descartado o mais rápido possível para dar lugar a novas mercadorias. Eles serão assim ótimos consumidores, péssimos cidadãos! Bebês não precisam de uma montanha de brinquedos e coisas que eles nem entendem. Eles precisam do tempo dos pais, de leite materno (quando possível), de contato físico, coisas que não se compram no cartão de crédito. Crianças não precisam de brinquedos novos a cada ida às lojas, elas precisam cultivar carinho pelo que têm, precisam da nossa presença, do nosso bom senso, do nosso amor, tanto quanto da nossa repreensão e autoridade, pois elas ainda não sabem quem são.
Eu assisti ao filme por esse viés, porque alimentação é algo tão essencial, está ligada a tudo que a gente faz, ao modo como tocamos nossas vidas, como trabalhamos, como consumimos. Num certo momento do filme, o ex-publicitário Alex Bogusky, esclarece: “O poder do consumidor é enorme porque ele tem o dinheiro. É a única coisa que você tem que as empresas querem… Se você sabe quais são seus valores e você os determina. Você diz ‘Eu vou comprar o futuro que quero ver no mundo, comprando somente de empresas compatíveis com meus valores’. Certamente você vai apavorar as empresas”. Vocês já pararam para pensar no que estão comprando? De quem estão comprando? De como é feito aquilo que você compra? Como são as pessoas envolvidas naquele processo de compra? Consumo é sim um ato político e se você decidir não comprar feito um zumbi teleguiado pelas propagandas, pelas revistas, pelas modinhas passageiras, é preciso começar a se fazer certas perguntas…
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