foto: Corbis
Sabe, venho de uma cidade bem pequena. Lorena é o que se pode chamar de fim de mundo. Tudo bem, fim de mundo é outra coisa, mas é ali pra lá da terra do Mazzaropi, dos jecas-tatu, depois da curva… (sou caipira de tudo, mas sei disfarçar, tá!).
Despedi-me de Lorena na mesma idade em que a gente costuma se retirar da infância (ou achar que saiu dela), aos 12, e voltei pra lá poucas vezes, talvez para não quebrar o encanto, para manter aquela coisa toda intacta, como se depositasse as boas memórias dentro de uma cápsula que levo no bolso aonde for. Ironicamente, caso o Alzheimer me pegue lá na frente, são as lembranças lorenenses as mais nítidas e acessíveis, pois dizem que os arquivos velhos são os mais vivos. Veremos. De certo, então, aos 90 (se eu durar esse tanto), tontinha das ideias, ainda terei na cabeça o nome de várias lojinhas e a sequência delas nas calçadas, o chafariz da praça, o picolé de groselha tinge-língua, as ruas de paralelepípedo, as caras conhecidas, a passarinhada da árvore do banco do Brasil que despejava suas titicas em mim no verão… paisagens que vou apalpando com a memória vez ou outra. A gente tinha um único cinema por lá, de frente à praça central. Foi lá que assisti ET (deviam prender o Spielberg por ter feito o ET mais feio ever e aterrorizado criancinhas), Um dia a casa cai, o Império do Sol e mais um punhado de filmes legais. A gente não tinha os problemas de agora para escolher que filme assistir, não! Se não me engano era sempre um filme só, então era aquele ou aquele mesmo. Isso faz pensar que quanto mais a gente retrocede no tempo, vê que era a própria vida que se encarregava de fazer as escolhas pra gente. No stress! Hoje tem 683468 opções pra qualquer bobaginha que a gente faz. Aí sofremos com dileminhas e dilemões que se põem no caminho… Ah, e como eram gostosos os filmes dos anos 80! Eles faziam sentido para nós crianças, havia sempre alguma traquinagem, adolescentes matando aula, conflitos bobos no colégio, piadinhas sujas, muita aventura e situações irreais, pai que trocava de lugar com o filho, criança que ficava adulto, insurreição de nerds… delicinha! Hoje a gente tem que aturar o bom-mocismo dos filmes infanto-juvenis e dos desenhos (blergh!), o que, convenhamos, não tem ajudado a criar ladies nem gentlemen, tamanha a má educação das crianças que se vê por aí.
Em Lorena só tínhamos um prédio na cidade inteira e todos o chamavam ingenuamente de… predião ♥! Hoje em dia, tadinho, como os prédios se alastram feito praga, deve ser predinho… É possível que no fim da vida eu fique sujetivamente presa a Lorena, para o bem e para o mal. Se alguém topar comigo em meados deste século, topará, sobretudo, com uma lorenense, com essas mesmas lembranças gastas entalhadas na cabeça. Peguei-me pensando nisso esses dias. Olha só no que dá o carnaval para alguém que não samba nem batuca!
Apesar de crescer em cidade miúda, viajava muito a São Paulo e achava tudo um horror (mas adorava os metrôs, as escadas rolantes e a cidade das crianças), dizia e repetia que nunca moraria lá! Imagina, toda aquela poluição, as ruas sujas, a quantidade de carros, as distâncias, eu hein! Mas sempre adorava voltar, amava e odiava aquela bagunça toda. Se eu soubesse que o trânsito e a poluição escalariam ao ponto de como estão hoje, acharia tudo aquilo uma graça, uma fichinha, seria uma menina de opinião mais condescendente… Naquela época, meu pai conseguia estacionar o carro na Galvão Bueno facinho, a qualquer hora do dia. Tá certo que muitas vezes a situação exigia muito talento pra baliza, mas hoje a rua não acolhe bem nem uma pulga. Delícia era entrar na velha livraria Ono e escolher mangás e livros para colorir, depois ir na peixaria azulejada no fundo da loja comprar obentô. Era tudo mais pacato quando o sushi ainda não era uma celebridade e as pessoas tinham nojinho de peixe cru…
Aí na adolescência, morando mais pertinho de São Paulo, continuei a frequentar muito a cidade grande. Ia com a atual comadre, garimpar CDs, bater perna, ficar perdida, dar risada. Depois passei a seguir as mostras de cinema, as exposições, oficinas disso e daquilo. Era sempre um pé lá, outro cá. Poderia me passar por uma culturete espertinha nessa época se não me vestisse e portasse como mais uma japonesa aguada na multidão e se não fosse tão… flagrantemente interiorana. O que achava mais intrigante era como alguns paulistanos tinham o interior como outro planeta, feito aquele estrangeiro que imagina o brasileiro indo trabalhar de canoa atravessando igarapés amazônicos. Alguns não entendem nada do interior, não sabem onde ficam nem as cidades medianas, nenhuma delas e, claro, estão convictos de que fora de São Paulo não há quase nada. É justo. Também não entendo nada de geografias e povos distantes e muitas vezes não me esforço, confesso. Engraçado como a gente já vai logo pondo um sombrero na cabeça do mexicano, boina e baguete no francês… por que não enfiariam uma banana na nossa?
Na infância eu não entendia muito bem que havia essa distinção entre capital e interior, achava todo mundo igual nesse quesito, afinal que diferença fazia na vida da pessoa esse negócio de nascer ou viver aqui ou lá? Quase nenhuma, a não ser que sejam as ilhas Salomão ou a Groenlândia… se bem que hoje nem o fim do mundo é tão fim do mundo assim. Aí a gente cresce e vai vendo que pros adultos é todo mundo tão diferente, só porque o sujeito é meio esquisitão, vem do bairro tal, tem o cabelo assim ou assado, tem um dedo a mais, gosta de homem, de mulher, gosta dos dois, qualquer bobagem é motivo pra criatura ser uma afronta pública. Não estou dizendo, com isso, que eu seja limpinha e não tenha meus bocados de conceitos feitos e instantâneos. Todo mundo parece que se ocupa muito em fingir que não tem preconceito nem inveja, essas coisas horrorosas que ninguém deveria ter, grita que não tem, solta um “deus me livre!”, mas tem. Ô! Se alguém admitir, vai pra fogueira do politicamente correto! Daí que todo mundo corre varrer seus achaques pra debaixo de um tapetinho sem-vergonha. Pura perda de tempo! Todo esse trabalho de negar as próprias falhas parece que só dá combustível pros nossos venenos queimarem mais dentro da gente.
Vocês viram a entrevista (sensacional) com o Laerte no Roda Viva desta semana (acho que foi reprise)? Seria apropriado, mas por enquanto, não vou falar dele, do Laerte ou da Laerte (não sei como andam chamando ele ou ela)… Repararam na psicanalista? Conhecia ela pelo nome e pelo que ela escreve por aí, mas não pelo rosto. Decidi aqui quietinha que, caso houvesse oportunidade, não trataria meu lado negro com ela, não. Algo ali não se adequa, a roupa, o porte, o jeitão de falar… Achei desleixada naquela hora (ó que maldade a minha!). Claro que minha esnobada imaginária não vai fazer diferença na vida de ninguém e tá certo que o cenário do programa, tão asséptico, não a favoreceu nadinha. E aquela luz? Tudo uma arapuca para as rugas, manchas e marcas de expressão! Desconto pra ela! Se eu fosse importante e fosse convidada pelo programa, só iria se me garantissem por escrito e lavrado boas doses de photoshop. Bom, mas também desconfio das psicanalistas peruonas demais, porque no fundo espero algum comedimento da pessoa que vai tratar meus desvarios. O meio termo sempre me parece mais salutar, mais apto. Sei lá por que a gente costuma acreditar nisso, mas é. De certo, uma pessoa que esquente um assento do Roda viva deve estar cheia de credenciais e qualidades mil e eu aqui, cheia de conjecturas furadas pra cima dela. A gente é assim, prontíssimo para pré-julgar o outro, enquanto os nossos defeitos ficam aqui, no choco, abafadinhos. Minha civilidade e fineza não permitem que meus conceitos precipitados se tornem uma grande coisa, algo a que devo me referir sempre ou que todos devem saber. Deixo tudo muito quietinho. Coisa minha (agora também é de quem me lê aqui). Céus!
Remediemo-nos.
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