Até amanhã, Eric!

Jun 19

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Era uma boneca japonesa de rosto comprido e silhueta esguia. Vestia kimono de crepe e rodopiava dentro de uma redoma de plástico de base amarelo-ovo, ao som de uma musiquinha que embalava meus primeiros sonos. Era um tesouro a minha caixinha de música! Os acordes ainda ressoam em mim, era o som da minha primeira infância! Na sua base, havia uma gavetinha, forrada em veludo vermelho, onde eu guardava um anel de pedrinha azul que mamãe comprou numa quermesse junina, depois de comermos juntas um cachorro-quente, chupando os dedos.

Minhas memórias mais remotas me trazem aromas, gostos e sons que me escapam fugidios, embora estejam nítidos e perenes em algum lugar, mais próximo ao coração do que à cabeça, por certo. Fui uma menina criada nos fundos do trabalho dos meus pais. Papai tinha uma loja de roupas infantis; mamãe, um salão de beleza. A mim era reservado um quartinho nos fundos do velho salão de mamãe. O piso era de taco, a janela era tipo guilhotina, tal qual as fazendas antigas. Havia ainda uma mesinha e cadeiras de fórmica, um radinho portátil, uma televisão em preto e branco, muitos brinquedos, livrinhos, canetinhas e lápis de cor. Era lá o meu mundinho! Nas falhas das paredes, de tinta gasta e descascada, eu enxergava baleias cachalotes gordas e pimponas. Apressava-me a desenhar olhinhos nelas para que não desvanecessem, como acontecia com as nuvens do céu. Desde sempre, eu tinha urgência de lembrar.

Quando a freguesia escasseava, meus pais vinham me ver, fazer um lanchinho, pôr uma musiquinha para tocar, conversar… Como era gostoso o milho que papai vinha debulhar nos intervalos que se abriam no meio da tarde! Eu, de janelinha na boca, saboreava, de colher, cada grãozinho que ele juntava zelosamente naquela xicrinha de chá. Papai também era exímio descascador de frutas! Depelava laranjas, maçãs, uvas com a destreza de quem executa trabalho importante. Ele enfileirava os pedaços de fruta para que eu comesse tudinho. Vai ver foi daí desse carinho que veio meu gosto por elas até hoje.

Mamãe também vinha ter comigo, no intervalo de um cabelo e outro, cantarolar alguma música japonesa das várias fitas cassete que ela gravava na vitrola de casa ou pintar um desenho com giz de cera. Ela pintava meninas delicadas, fazia cabelinhos em degradê, segurando o giz levemente com aqueles dedos cansados, mas finos e alongados que só ela tem. O carinho e a paciência do traço de artista não eram de alguém aguardada por uma antessala tagarela, cheia de penteados, bobes e unhas por fazer.

São esses momentos e gestos menores que dizem tudo em silêncio. Mamãe hoje sofre uma pontinha de culpa, a famigerada culpa materna, por ter trabalhado muito e dispensado pouco tempo aos filhos. Mal sabe ela que os momentos que partilhou comigo tiveram a medida exata de tudo que é precioso: fugaz no contar das horas, mas eterno na memória e no coração.

Agora é nossa vez, Eric, de construir nossa história, de cultivar os momentos que irão te fortalecer e dignificar. Você, filho, prestes a completar 5 meses, já cavou fundo em mim um mundo novo. Já somos velhos conhecidos! Meus dedos já percorrem jeitosos todo seu corpinho, com a habilidade de quem trilha a mesma estradinha há anos. Já sei quando tem sono, quando está cansado, quando quer um afago quentinho e você também reconhece em mim a alegria, a exaustão, o medo, as macaquices e palhaçadas, as lágrimas. Serei eu a companheira do começo dessa sua jornada e espero passar esse bastão para as pessoas que te cativarem ao longo do seu caminho. Viverei com você todos os seus primeiros: as primeiras descobertas, a primeira palavra, o primeiro passo, a primeira decepção… todos eles serão também os meus primeiros. Vou rir e sofrer com você e por você. Torço para que você leve no peito as suas caixinhas de música, os momentos ternos e bons, os seus tesourinhos afetivos, para que você tenha para onde se voltar sempre que passar por uma dor que beire o insuportável. Você me remoça, me faz viver tudo de novo de um jeito que eu não conhecia, me faz querer viver mais para ver mais de você. Assim como você, sei muito pouco da vida, mas te apresentarei o que sei, o que tem valor para mim, para que você escolha e seja livre.

Uma vida boa, Eric!

 

371 Comentário

  1. Que post lindo, Emy, fiquei realmente emocionada.
    Apesar de não ter filhos, tenho feito muitas visitas a minha infância e seus sentimentos, cheiros, cores, e esse seu texto me fez perceber o quanto é um privilégio participar das primeiras descobertas de uma pessoa.

    Espero que o Eric tenha muitas alegrias na vida e que a relação de vocês seja sempre permeada por muito amor.

    Beijos

  2. oi camila, a infância é um lugarzinho tão íntimo e confortável, né! Gostoso viajar pra lá às vezes! obrigada pelo carinho nas palavras! bjoca

  3. Carla /

    Emy,

    Só uma pessoa que recebeu muito amor e que doa muito amor pode escrever um texto com essa qualidade de presença. Presença em cada palavra, em cada sentimento.
    Me senti sentada no sofá da sua casa conversando sobre sentimentos tomando um chazinho e comendo um bolo.
    Feliz e acalentada por lembranças tão felizes.

    Obrigada!! Arigatô gosaimasu!!!
    Beijos

    • oi carla, tem razão, não posso me queixar da quantidade e qualidade de amor recebidas até hoje, rs… tenho q passar esse quinhão pra alguém, né e o Eric será meu maior depositário (espero não ser a mão-loka-grudenta). Mas vem cá q a gente toma o chá e o bolinho :D

  4. Fátima /

    Emy, sou fã do seu blog, dos seus trabalhos e tudo mais.
    Leio tudo que você escreve, acho maravilhoso como você está encarando a maternidade, de forma tão madura. Este post está lindo, passou por minha mente um filme de sua infância,vi o carinho de seu pai e sua mãe, agora sei por que você é assim: amorosa, dedicada, etc…. Feliz do Eric que tem pais tão especias., felicidades mil a vocês tres.

    Bjssss

  5. jeane /

    Lindisssimo!!Fiquei muito emocionada e até me recordei momentos de minha infancia, certamente o Eric será muito feiz com pais tão dedicados. Felicidades !!!!

    • é bom recordar, né Jeane! é um jeito da gente se reabastecer para encarar o dia-a-dia, o futuro… bjs

  6. Vitoria /

    Seu texto comove, Emy, porque vc dá voz à sua alma. Lindo!!! Vou votar em vc!!!

  7. Lilian /

    Emy,
    Conheci seu texto através da Maria Vitória Falabella de Castro. Parabéns!Sua sensibilidade escorre pelas pontas de seus dedos e se transformam em um lindo texto sem lugar comum, mas, ao mesmo tempo, sendo o lugar comum de todas as mães.

    • oi Lilian, no fim das contas, somos todos um tanto parecidos, ainda mais quando nos tornamos mães! :D

  8. Paula /

    Emy,
    Não sabia que tinha tido filho. Parabéns!
    E não sabia que escrevia tão bem… texto lindíssimo!
    Beijo e saúde para você e Eric.
    Paula

    • oi Paula, tive um menino! Ele já está com 5 meses, forte, lindo e saudável! bjoca

  9. Edna /

    Emy, assim como as suas carteiras, as suas bolsas e tudo aquilo que você oferece generosamente como produto da sua arte, traduzem todo o amor que você traz no coração, as suas palavras também fazem a gente voltar e viajar pela nossa infância. Lindo o seu texto. E parabéns pela chegada do Eric com os seus cheiros, sons, sabores e cores.

  10. Paula Andrade /

    Emy,

    Seu filhote é muito fofo!!! E adoro o seu trabalho! Quero votar no seu post, como faço?

    bjs!!

    • oi Paula,

      é só acessar este link e curtir a página do Limetree que o botão de votar aparece! obrigada pelo carinho! O Eric é mesmo um fofo! Tô tentando não ficar monotemática e só falar dele, mas tá difícil, rs… bjinho

  11. Nana Pequini /

    Obrigada, Emy por borrar meu deliniador! rsrsrsrsr
    Olha, eu aqui sentada na mesa de trabalho e chorando…suas lembranças de infância lembram as minhas e sua maternidade e pedidos são os meus pedidos. Como somos todos parecidos!!! Como os corações sentem coisinhas tão proximas!!!! Ah, meu pai, me dava cana (cortava rapidinho) e milho na fogueira!!!!

    Bjs em vc e no ERic

  12. Cris Miyashiro /

    Emy!

    Amei seu post! Mesmo se nao ganhar como o melhor post do mundo, pra mim sempre será!

    Parabens e mta saude para o Eric!

    Bjs

    Cris Miyashiro

  13. Saiba que você foi uma de minhas inspirações para começar meu próprio negócio. Parabéns pela sua arte, pela pessoa que vc é e por seu lindo filho. Também sou mãe, de um lindo menino de 3 anos, e consigo compreender o tamanho do seu amor. O texto está lindo, seus sentimentos também. Que vc seja a vencedora. Grande abraço.

  14. Texto lindo, poético, profundo, mas ao mesmo tempo suave. Uma delícia de ler, tal como a sua infância. Parabéns pela maravilhosa escolha de palavras, pelos valores lindos que passa ao seu filho, por todo o afeto do passado e do presente. Obrigada por compartilhar este post. Beijo!

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